EXPEDIÇÃO MONTE RORAIMA 2017 PARTE IV

POR DO SOL NO RIO AMAZONAS

O navio São Bartolomeu III é uma embarcação de ferro, considerada moderna e segura  para os padrões da região, mas já existem outros navios mais novos e mais confortáveis, como também existem muitos barcos de madeira chamados de "gaiolas"  que na grande maioria, não possuem condições de segurança satisfatórias. Mesmo assim, são os únicos meios de transporte disponíveis para se chegar em grande parte das cidades e comunidades isoladas, transportando pessoas e mercadorias. A partir dali, tudo que para nós era novidade, para a maioria daquelas pessoas acomodadas em centenas de redes coloridas, coladas umas nas outras, já faz parte do seu cotidiano e cada um vai desenvolvendo a estratégia de enfrentamento mais adequada para lidar com os "perrengues" surgidos a bordo. Como existem muitos registros de roubo, as pessoas passam a maior parte da viagem deitadas e não desgrudam dos seus pertences que são arrumadas embaixo das redes e se reversam  para cuidar um da bagagem do outro, enquanto alguém dorme, vai ao banheiro ou ao restaurante. Aos poucos íamos conhecendo o Rio Amazonas e o costume das pessoas da região. Ao contrário do que imaginávamos, a ocupação das suas  margens pelos ribeirinhos já é bem acentuada. Não  se percorrem longas distâncias sem avistar uma comunidade assentada na mata ciliar, que em vários pontos foi transformada em pastagem, às vezes deixando à vista altas barrancas  conhecidas como "terras caídas" que é um processo de erosão natural, mas também sofre uma aceleração por conta do desmatamento e do banzeiro que são as ondas formadas com a passagem de grandes embarcações próximas das margens do rio. Na estação das águas algumas  comunidades são  tomadas pelas enchentes, fazendo com que os ribeirinhos  recorram a enormes jangadas de troncos de madeira chamadas de maromba, que transportam pessoas, móveis e animais para locais mais altos, até que o rio volte ao seu nível normal. Fizemos a primeira parada na cidade de Itacoatiara para embarque e desembarque de passageiros e mercadorias. Neste pequeno espaço de tempo que o navio fica parado, vendedores em terra usando varas de bambu, fazem chegar até os passageiros que estão  no navio as suas mercadorias, na maioria sanduíches, refrigerantes, frutas e queijo. O pagamento é colocado em uma garrafa pet amarrada na ponta da vara e o troco volta do mesmo jeito. Tudo é feito de forma muito rápida. No final da tarde fomos tomar vinho no deck, apreciando a paisagem e um por do sol de tom dourado que refletido nas águas escuras do rio nos rendeu belas fotos. Jantamos ali mesmo uma quentinha bem básica comprada na cozinha do navio e continuamos curtindo a nossa primeira noite de cruzeiro pelo Rio Amazonas. No percurso o navio cruzou com várias outras embarcações, algumas de grande porte transportando contêineres, balsas levando carretas rodoviárias e barcos de passageiros. Ao final do primeiro dia de viagem já conhecíamos várias pessoas. Encontramos gente do Ceará e de outros estados do Nordeste que já moravam há muito tempo na região e contavam "causos" num papo animado que servia para passar o tempo. Conhecemos um rapaz do Rio Grande do Norte que morava em Manaus e estava levando um carro para vender em Natal. Famílias da região com crianças mudando de cidade em busca de emprego, enfim, várias histórias de vida dessas pessoas que tínhamos acabado de conhecer e já eram nossos amigos. Anoiteceu e aos poucos o barco foi ficando em silêncio com a maioria das pessoas se recolhendo as suas redes, enquanto o São Bartolomeu navegava calmamente ajudado pela correnteza na penumbra da noite. O céu estava um pouco nublado mas conseguíamos observar algumas estrelas e um pouco da luz da lua refletida no espelho d'Água. A visão da selva e do rio à noite é um momento único e de rara beleza. Ao mesmo tempo que transmite uma sensação de paz, a escuridão também assusta e faz com que a nossa imaginação vá "cascaviar" episódios violentos envolvendo ataques de piratas que costumam abordar as embarcações quando a noite cai e a maioria das pessoas dorme. Lembramos do caso recente que vitimou a Inglesa Emma Kelty, assassinada no município de Coari e da família de americanos, casal e dois filhos de 3 e 7 anos, cuja balsa em que viajavam foi atacada próximo  da cidade de Breves no Estado do Amapá. Para escapar dos piratas, eles pularam no rio junto com as crianças e fugiram usando uma prancha de surfe. Ficaram três dias escondidos na mata ribeirinha, comendo folhas, insetos e bebendo água do rio até serem resgatados pela polícia. Já era tarde quando fomos dormir. O vento era brando e o navio quase não balançava. Na madrugada acordei com uma forte pancada de troncos e galhos de madeira raspando o casco da embarcação. Embora usem um holofote poderoso para avistar troncos, pequenas embarcações ou algum outro objeto à deriva, as vezes o choque é inevitável. Felizmente os barcos de ferro são reforçados para resistir a essas colisões e nada de grave aconteceu. 

Escreva um novo comentário: (Clique aqui)

SimpleSite.com.br
Caracteres restantes: 160
CONCLUÍDO Enviando...
Ver todos os comentários

Comentários recentes

06.04 | 14:19

Brigado Luiz. Dedicamos esta conquista a vocês!
Grande Abraço!

...
06.04 | 11:20

Olá, pai e mãe. Muito orgulhoso pela aventura de vocês! Um grande abraço! Parabéns!

...
24.02 | 14:51

Brigado ao grande amigo e Monteverdeano Alvaro pelos seus comentários!
Mario & Carmen.

...
19.02 | 17:32

É contagiante mergulhar na narrativa e sentir a emoção de fazer parte dela... Parabéns amigos pelo desafio vencido... Desafio possível somente aos cortes...

...
Você curtiu esta página