EXPEDIÇÃO MONTE RORAIMA 2017 PARTE IV

MOMENTO DE DESCANSO

Depois de navegar 420 km em 19 horas, fizemos a nossa segunda escala por volta de sete da manhã em Parintins. Enquanto tomávamos o café da manhã, ficamos observando a movimentação no porto da pequena ilha onde todo ano, no último fim de semana de junho acontece o Festival de Parintins, que revive em três dias a lenda do boi ressuscitado por um pajé, contada numa disputa  Folclórica entre os bois Garantido e Caprichoso. Passávamos a maior parte do tempo na proa do navio em frente a nossa cabine que era o local preferido para o bate-papo com os outros passageiros. Ali ficávamos por horas proseando e vez por outra tomando uma  cervejinha. No segundo dia embarcados, resolvemos experimentar um pouco da viagem na velha rede de dormir, uma herança indígena que se popularizou como um dos símbolos da cultura nas regiões Norte e Nordeste. Como não tínhamos redes a gerente do barco nos emprestou duas e descemos para arma-las  no convés onde estava o nosso carro pois achamos os andares reservados para os redarios muito cheio. Espichamos as redes e a brisa fresca vinda do rio junto com o balanço do barco nos fez cochilar por algum tempo até chegar a hora do almoço. Achamos muito bacana o jeito de viajar deitado  e  resolvemos continuar ali por mais tempo. Almoçamos e aos poucos vimos o navio se aproximar do Porto da cidade de Óbidos, até que a gerente do navio pediu que a gente desarmasse as redes pois aquele local era destinado somente para cargas e no caso de a Marinha nos flagrar com as redes armadas, o navio seria multado. Próximo à cidade de Óbidos no ponto conhecido como Garganta do Rio Amazonas, o leito do rio afunila e  sofre o maior estreitamento da sua calha. A sua imensidão é de repente reduzida para pouco mais de 1,8 km de largura, e o rio se torna caudaloso, fazendo com que a velocidade média  da correnteza passe de 2,5 km para 8 km por hora. Por ser uma passagem obrigatória de todas embarcações que trafegam pela Hidrovia a partir de Tabatinga até Belem, a Polícia Federal mantém ali uma base de controle onde exerce uma fiscalização 24 horas. Os policiais subiram a bordo e começaram a examinar os documentos e a fiscalizar os pertences das pessoas que estavam nos dois passadiços destinados aos redarios. Pouco depois fomos chamados para que os policiais também revistassem o nosso carro. A fiscalização foi feita por um policial nosso conterrâneo nascido na cidade de Pacoti, Maciço de Baturité-Ce. A cidade de Óbidos guarda na sua memória  a triste história de ter sido palco da maior tragédia fluvial da Amazônia. Na madrugada de 19 de setembro de 1981, quando se preparava para atracar o navio Sobral Santos II, considerado um dos mais  seguros da época, com capacidade para 500 passageiros e 200 toneladas de carga adernou e em menos de dez minutos foi a pique tirando a vida de mais de 340 pessoas. Este número ainda é controverso até hoje, pois algumas  fontes afirmam que pelo menos duzentos passageiros foram embarcados de dois outros navios que estavam em pane sem a devida identificação. Doze dias após naufragar,  a embarcação foi içada, depois reformada e posteriormente rebatizada com o nome de Cisne Branco, sendo hoje homologada para navegar, transportando 232 passageiros e 160 toneladas de carga. Por volta de 16:00 horas, após  a fiscalização da Polícia Federal, o navio recebeu autorização para zarpar e cumprir os 120 km restantes até Santarém. Como o São Bartolomeu III, navegava a uma velocidade média de 11 nós, aproximadamente 20 km por hora, a nossa previsão de chegada seria mais ou menos as 22:00 horas. Em condições de rio cheio e navegando a favor da correnteza, uma embarcação do porte do São Bartolomeu, chega a uma velocidade de 13:00 nós ou 24 km por hora, mas considerando o baixo nível do rio e a chegada da noite, os troncos submersos e os bancos de areia mutáveis viram uma armadilha invisível para a tripulação  que precisa redobrar a atenção e neste caso a velocidade tem que ser reduzida. Esses perigos, além dos piratas e das tempestades repentinas, foram listadas pelo lendário comandante francês Jacques Cousteau, quando em 1982 realizou uma grandiosa expedição pela Amazônia. Na tarde do dia 01/11/17 subimos no deck para acompanhar o por do sol e novamente o espetáculo se repetiu. Ficamos por um bom tempo contemplando a chegada da noite,  até  o surgimento das primeiras estrelas. A brisa refrescante e a calmaria do rio, criam um clima de sossego que nos ajudam a relaxar e esquecer da vida. Assim tem sido até agora a nossa experiência  nesses dois dias de cruzeiro pelo maior rio do mundo. Como o tempo começou a esfriar, descemos para o refeitório, jantamos uma sopa e depois nos juntamos aos outros passageiros na varanda da proa para mais um noite bate-papo. Aos poucos começamos a avistar o clarão de Santarém e como havia sido previsto, por volta de 22:00 horas o navio atracou no cais de Santarém e o aí o "furdunço" foi grande! Como acontece nos aviões  quando todos desafivelam os cintos e abrem os bagageiros a procura das suas malas, no navio todos desarmam as suas redes e juntam as suas malas se preparando para o desembarque. Em terra um batalhão de carregadores fica no píer e os passageiros começam a arremessar os seus vários  pertences que são por eles agarrados e acomodados em carros de mão para serem levados até os táxis, carros particulares e motos que ficam num ponto mais afastado. Em pouco tempo o navio foi se esvaziando e aquelas centenas de redes coloridas foram todas  desarmadas, enquanto as luzes iam sendo desligadas, dando a impressão de que estávamos em  um navio fantasma! Os passageiros  que estavam transportando carro, como era o nosso caso, teriam que pernoitar no navio pois o desembarque só poderia ser feito no dia seguinte em uma plataforma mais elevada. Conforme já tínhamos sido avisados, naquele porto o gerador do navio seria desligado e em consequência disso não teríamos ar condicionado e nem iluminação na nossa suíte. Como o calor era  forte, deixamos os nossos pertences trancados, e fomos dormir no passadiço reservado para as redes no primeiro andar. Algumas pessoas que iam embarcar cedo para outras cidades, também permaneceram a bordo. Ao final éramos pelo menos oito pessoas entre adultos e crianças naquele imenso espaço antes ocupado por centenas de pessoas. Embora a gerente da embarcação tivesse nos garantido que o navio tinha vigia e que o local era considerado seguro, ficamos um pouco receosos e demoramos a dormir até sermos finalmente vencidos pelo cansaço e pelo sono. Acordamos nas primeiras horas da manhã com vendedores de passagens oferecendo bilhetes para Macapá, Belém e várias outras localidades. Por volta de 7:00 horas, a tripulação chegou e começou a preparar o navio para mais uma viagem. Tomamos café e o navio foi deslocado para outro píer onde o nosso carro e os outros foram desembarcados. 

 

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Comentários recentes

06.04 | 14:19

Brigado Luiz. Dedicamos esta conquista a vocês!
Grande Abraço!

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06.04 | 11:20

Olá, pai e mãe. Muito orgulhoso pela aventura de vocês! Um grande abraço! Parabéns!

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24.02 | 14:51

Brigado ao grande amigo e Monteverdeano Alvaro pelos seus comentários!
Mario & Carmen.

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19.02 | 17:32

É contagiante mergulhar na narrativa e sentir a emoção de fazer parte dela... Parabéns amigos pelo desafio vencido... Desafio possível somente aos cortes...

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