EXPEDIÇÃO MONTE RORAIMA 2017 PARTE IV

Dia 03/11/17,  seguimos de Alter por 26 quilômetros para conhecer a Praia de Ponta de Pedras que fica numa pequena vila de pescadores e é um verdadeiro refúgio para quem quer sentir a sensação de estar em uma praia particular, longe do agito da Ilha do Amor ou das grandes cidades. Uma parte da praia é cercada por enormes rochas escuras que dão nome ao lugar onde algumas pessoas armam as suas  redes nas pequenas cavernas que nelas se formam para fugir do sol e ao mesmo tempo aproveitam para  se refrescar nas  águas transparentes do Tapajós. Também existem algumas barracas que servem comidas e bebidas,  alem de uma boa presença de vegetação nas margens do rio que ajudam a amenizar o calor e dar um clima bucólico ao local. Depois de conhecer este paraíso, seguimos  por estradas de terra para a Praia de Carapanari em busca de um  local considerado imperdível  e referência para quem faz turismo em Santarém. Estamos falando do Restaurante Casa do Saulo, instalado num local com vista para a paradisíaca Praia de Carapanari, onde o próprio Saulo participa do atendimento no restaurante,  e na cozinha elabora pratos requintados da culinária paraense, tudo às margens da imensidão do sublime Tapajós. A história começou quando o Saulo construiu uma pequena cabana no local onde hoje funciona o restaurante e nos finais de semana convidava alguns amigos para experimentar os pratos que ele mesmo preparava. Os amigos então passaram a encomendar pratos e daí surgiu a ideia de montar o restaurante que hoje funciona com um serviço de excelente qualidade, num ambiente temático de mata preservada com piscina e outros confortos que fazem do local um passeio imperdível. Como nesse dia o espaço estava reservado para uma festa de casamento, almoçamos, fizemos algumas fotos e retornamos para Alter por volta das 16:00horas quando o restaurante encerrou o atendimento ao público. Retornamos para Alter, circulamos pelo centrinho para comprar suvenir e depois fomos para a praia do Píer Azul, acompanhar o por do sol e o nascer da lua que naquele dia se uniram num espetáculo de rara beleza em perfeita sintonia com a natureza do lugar. Conta a lenda que em noites de lua os botos se transformavam em homens para seduzir moças de comunidades ribeirinhas. Depois de nove meses, nasceria o resultado da união. A lenda foi bastante utilizada para explicar gestações fora do casamento de algumas moças, mas hoje é contada com bom humor pelos nativos, como um dos símbolo da cultura local. Esse visual esplêndido que conhecemos em dois dias, desaparece completamente no inverno amazônico que vai de fevereiro a junho, quando as águas do Rio Tapajós sobem e as praias ficam submersas deixando de fora só o topo de algumas barracas. Neste período os turistas ficam escassos e Alter do Chão volta a ser a pacata vila de pescadores. Em agosto,  as águas baixam e as praias reaparecem tornando o vilarejo badalado novamente. Esse ciclo se repete a cada ano mas há pessoas que preferem visitar o local na época da cheia pois existem passeios de barco pela floresta alagada que na época da seca não podem ser realizados. 

Circulamos rapidamente por Santarém até encontrar a estrada que nos levaria para o distrito de Alter do Chão onde tínhamos pousada reservada para os próximos dois dias. Tão logo encontramos o caminho seguimos viagem. Distante 38 km de Santarém a vila de Alter, antes uma ilustre desconhecida,  passou a ficar famosa principalmente  no exterior, quando foi incluída pelo jornal Inglês The Guardian, na lista das dez praias mais bonitas do Brasil, além de classificar o lugar como o mais bonito do mundo no quesito praia de água doce.  A partir daí a pequena aldeia de pescadores, foi descoberta por brasileiros e passou a ser muito frequentada, principalmente  por estrangeiros que passaram a chama-la de Caribe da Amazônia. Mesmo assim, apesar de bastante badalado o local ainda é considerado muito tranquilo para quem procura descanso e lazer de um jeito simples e econômico sem abrir mão do conforto e beleza. O período de maior movimento, acontece na época  de seca que vai de agosto a novembro quando as águas do Rio Tapajós baixam e surge a famosa Ilha do Amor, cartão-postal da vila que fica junto ao centrinho de Alter. Dependendo da época, para chegar na ilha que na verdade é um grande banco de areia, se faz necessárias recorrer aos barqueiros que em pequenas canoas, fazem a travessia das pessoas ligando a vila, até onde fica a praia com várias barracas que sevem bebidas e comidas típicas. Como chegamos no auge do período da seca e o rio estava baixo, fizemos a travessia a pé sem necessidade de usar os barcos. O lugar é realmente muito bonito! A água morna e cristalina do Rio  Tapajós, contrasta com a areia branca e ganha um tom azul profundo só visto nas praias do caribe. Ali  saboreamos um dos pratos mais famosos da comunidade: um pequeno peixe chamado de charutinho que é servido frito acompanhado com bastante farofa. Essa dica nos foi dada por um amigo que conhecemos no Navio São Bartolomeu. Várias mesas são montadas dentro d'água onde os clientes são  atendidos com a água até a cintura, como se estivessem numa grande piscina que chega a 10 km de extensão. Tudo isso em plena Floresta Amazônica. Para aproveitar bem os dois dias que tínhamos disponíveis, logo no início da tarde seguimos por uma estrada de terra para o Município de Belterra e de lá para a Praia do Pindobal. Belterra foi uma concessão do governo brasileiro à companhia americana Ford que em 1934, ali implantou um megaprojeto de plantio de seringueiras para a produção e exportação de látex. No local foram construídas casas para os empregados, igreja, escola e hospital, tudo no modelo das cidades americanas da época. Uma das casas foi especialmente construída  para Henry Ford que apesar de ser o administrador oficial da cidade, por lá nunca apareceu pois tinha medo de contrair alguma doença tropical. Com o surgimento da borracha sintética e o baixo custo do produto no Continente Asiático o cenário mudou completamente e Ford desistiu do seu projeto que tinha sido planejado para durar um século. Diante disso, em 1945,  Ford devolveu a concessão das terras ao governo brasileiro e o projeto foi desativado. Ao visitar a pequena cidade, fizemos uma viagem ao passado e podemos ver na pequena vila, algumas casas que ainda permanecem intactas, pois foram tombadas e hoje pertencem ao patrimônio histórico do estado. Esse foi o segundo projeto fracassado de Henry Ford no Brasil. Em 1927, ele já havia tentado algo semelhante numa área de 14.568km2 que recebeu o nome de Fordlândia no municio de Aveiro, também no estado do Pará. Diferente do que aconteceu em Belterra, esse projeto fracassou por conta da cultura conflitante entre os administradores americanos e os operários brasileiros,  que achavam as regras de comportamento no trabalho impostas pela Ford muito rígidas para os nossos costumes, bem como pelo fato de o terreno adquirido por Ford, ser  inapropriado para o cultivo de seringueiras o que favoreceu o surgimento de uma praga que se espalhou rapidamente dizimando a plantação. Na Praia do Pindobal, que se diferencia da Ilha do Amor pela calmaria e pela privacidade, encontramos  inúmeras pequenas barracas de palha, que substituem os tradicionais sombreiros, espalhadas pela areia fofa. Essas barracas, são supridas pelos restaurantes que ficam mais acima da margem e podem ser compartilhadas por um casal ou por um grupo de amigos, como acontece nas praias do Nordeste. Ali é possível saborear um peixe frito, curtindo o sol e depois descansar ao sabor da brisa e das águas calmas e transparentes do Tapajós. Caminhamos pela praia deserta e mais tarde voltamos para Alter onde já havíamos contratado uma lancha para nos levar ao famoso por do sol na Ponta do Cururu. A praia recebe esse nome por conta de uma enorme rocha na praia que se assemelha ao formato de um sapo cururu. Diferente das outras praias, na Ponta do Cururu a faixa de areia é bem menor e não alcança mais que 2km de extensão. O local é paradisíaco e ainda guarda um aspecto bem natural. Não existe nenhuma barraca ou qualquer outro tipo de estrutura de apoio. Quem for pra lá precisa levar a sua bebida. Os passeios acontecem sempre no final da tarde quando várias  lanchas e catamarans  levando turistas, aportam na praia de areias finas e por lá ficam até o pôr do sol que as vezes aparece acompanhado de alguns botos que fazem uma exibição a parte. Para a nossa sorte, mesmo que o pôr do sol não tenha sido  deslumbrante como esperávamos devido o surgimento de algumas nuvens, tivemos a presença dos botos como recompensa. Ao cair da noite retornamos para Alter do Chão e como fazem a maioria dos turistas, encerramos o dia em uma das lanchonetes da cidade saboreando um sanduíche preparado com pirarucu, um dos vários sabores típicos da culinária paraense.

Depois de navegar 420 km em 19 horas, fizemos a nossa segunda escala por volta de sete da manhã em Parintins. Enquanto tomávamos o café da manhã, ficamos observando a movimentação no porto da pequena ilha onde todo ano, no último fim de semana de junho acontece o Festival de Parintins, que revive em três dias a lenda do boi ressuscitado por um pajé, contada numa disputa  Folclórica entre os bois Garantido e Caprichoso. Passávamos a maior parte do tempo na proa do navio em frente a nossa cabine que era o local preferido para o bate-papo com os outros passageiros. Ali ficávamos por horas proseando e vez por outra tomando uma  cervejinha. No segundo dia embarcados, resolvemos experimentar um pouco da viagem na velha rede de dormir, uma herança indígena que se popularizou como um dos símbolos da cultura nas regiões Norte e Nordeste. Como não tínhamos redes a gerente do barco nos emprestou duas e descemos para arma-las  no convés onde estava o nosso carro pois achamos os andares reservados para os redarios muito cheio. Espichamos as redes e a brisa fresca vinda do rio junto com o balanço do barco nos fez cochilar por algum tempo até chegar a hora do almoço. Achamos muito bacana o jeito de viajar deitado  e  resolvemos continuar ali por mais tempo. Almoçamos e aos poucos vimos o navio se aproximar do Porto da cidade de Óbidos, até que a gerente do navio pediu que a gente desarmasse as redes pois aquele local era destinado somente para cargas e no caso de a Marinha nos flagrar com as redes armadas, o navio seria multado. Próximo à cidade de Óbidos no ponto conhecido como Garganta do Rio Amazonas, o leito do rio afunila e  sofre o maior estreitamento da sua calha. A sua imensidão é de repente reduzida para pouco mais de 1,8 km de largura, e o rio se torna caudaloso, fazendo com que a velocidade média  da correnteza passe de 2,5 km para 8 km por hora. Por ser uma passagem obrigatória de todas embarcações que trafegam pela Hidrovia a partir de Tabatinga até Belem, a Polícia Federal mantém ali uma base de controle onde exerce uma fiscalização 24 horas. Os policiais subiram a bordo e começaram a examinar os documentos e a fiscalizar os pertences das pessoas que estavam nos dois passadiços destinados aos redarios. Pouco depois fomos chamados para que os policiais também revistassem o nosso carro. A fiscalização foi feita por um policial nosso conterrâneo nascido na cidade de Pacoti, Maciço de Baturité-Ce. A cidade de Óbidos guarda na sua memória  a triste história de ter sido palco da maior tragédia fluvial da Amazônia. Na madrugada de 19 de setembro de 1981, quando se preparava para atracar o navio Sobral Santos II, considerado um dos mais  seguros da época, com capacidade para 500 passageiros e 200 toneladas de carga adernou e em menos de dez minutos foi a pique tirando a vida de mais de 340 pessoas. Este número ainda é controverso até hoje, pois algumas  fontes afirmam que pelo menos duzentos passageiros foram embarcados de dois outros navios que estavam em pane sem a devida identificação. Doze dias após naufragar,  a embarcação foi içada, depois reformada e posteriormente rebatizada com o nome de Cisne Branco, sendo hoje homologada para navegar, transportando 232 passageiros e 160 toneladas de carga. Por volta de 16:00 horas, após  a fiscalização da Polícia Federal, o navio recebeu autorização para zarpar e cumprir os 120 km restantes até Santarém. Como o São Bartolomeu III, navegava a uma velocidade média de 11 nós, aproximadamente 20 km por hora, a nossa previsão de chegada seria mais ou menos as 22:00 horas. Em condições de rio cheio e navegando a favor da correnteza, uma embarcação do porte do São Bartolomeu, chega a uma velocidade de 13:00 nós ou 24 km por hora, mas considerando o baixo nível do rio e a chegada da noite, os troncos submersos e os bancos de areia mutáveis viram uma armadilha invisível para a tripulação  que precisa redobrar a atenção e neste caso a velocidade tem que ser reduzida. Esses perigos, além dos piratas e das tempestades repentinas, foram listadas pelo lendário comandante francês Jacques Cousteau, quando em 1982 realizou uma grandiosa expedição pela Amazônia. Na tarde do dia 01/11/17 subimos no deck para acompanhar o por do sol e novamente o espetáculo se repetiu. Ficamos por um bom tempo contemplando a chegada da noite,  até  o surgimento das primeiras estrelas. A brisa refrescante e a calmaria do rio, criam um clima de sossego que nos ajudam a relaxar e esquecer da vida. Assim tem sido até agora a nossa experiência  nesses dois dias de cruzeiro pelo maior rio do mundo. Como o tempo começou a esfriar, descemos para o refeitório, jantamos uma sopa e depois nos juntamos aos outros passageiros na varanda da proa para mais um noite bate-papo. Aos poucos começamos a avistar o clarão de Santarém e como havia sido previsto, por volta de 22:00 horas o navio atracou no cais de Santarém e o aí o "furdunço" foi grande! Como acontece nos aviões  quando todos desafivelam os cintos e abrem os bagageiros a procura das suas malas, no navio todos desarmam as suas redes e juntam as suas malas se preparando para o desembarque. Em terra um batalhão de carregadores fica no píer e os passageiros começam a arremessar os seus vários  pertences que são por eles agarrados e acomodados em carros de mão para serem levados até os táxis, carros particulares e motos que ficam num ponto mais afastado. Em pouco tempo o navio foi se esvaziando e aquelas centenas de redes coloridas foram todas  desarmadas, enquanto as luzes iam sendo desligadas, dando a impressão de que estávamos em  um navio fantasma! Os passageiros  que estavam transportando carro, como era o nosso caso, teriam que pernoitar no navio pois o desembarque só poderia ser feito no dia seguinte em uma plataforma mais elevada. Conforme já tínhamos sido avisados, naquele porto o gerador do navio seria desligado e em consequência disso não teríamos ar condicionado e nem iluminação na nossa suíte. Como o calor era  forte, deixamos os nossos pertences trancados, e fomos dormir no passadiço reservado para as redes no primeiro andar. Algumas pessoas que iam embarcar cedo para outras cidades, também permaneceram a bordo. Ao final éramos pelo menos oito pessoas entre adultos e crianças naquele imenso espaço antes ocupado por centenas de pessoas. Embora a gerente da embarcação tivesse nos garantido que o navio tinha vigia e que o local era considerado seguro, ficamos um pouco receosos e demoramos a dormir até sermos finalmente vencidos pelo cansaço e pelo sono. Acordamos nas primeiras horas da manhã com vendedores de passagens oferecendo bilhetes para Macapá, Belém e várias outras localidades. Por volta de 7:00 horas, a tripulação chegou e começou a preparar o navio para mais uma viagem. Tomamos café e o navio foi deslocado para outro píer onde o nosso carro e os outros foram desembarcados. 

 

O navio São Bartolomeu III é uma embarcação de ferro, considerada moderna e segura  para os padrões da região, mas já existem outros navios mais novos e mais confortáveis, como também existem muitos barcos de madeira chamados de "gaiolas"  que na grande maioria, não possuem condições de segurança satisfatórias. Mesmo assim, são os únicos meios de transporte disponíveis para se chegar em grande parte das cidades e comunidades isoladas, transportando pessoas e mercadorias. A partir dali, tudo que para nós era novidade, para a maioria daquelas pessoas acomodadas em centenas de redes coloridas, coladas umas nas outras, já faz parte do seu cotidiano e cada um vai desenvolvendo a estratégia de enfrentamento mais adequada para lidar com os "perrengues" surgidos a bordo. Como existem muitos registros de roubo, as pessoas passam a maior parte da viagem deitadas e não desgrudam dos seus pertences que são arrumadas embaixo das redes e se reversam  para cuidar um da bagagem do outro, enquanto alguém dorme, vai ao banheiro ou ao restaurante. Aos poucos íamos conhecendo o Rio Amazonas e o costume das pessoas da região. Ao contrário do que imaginávamos, a ocupação das suas  margens pelos ribeirinhos já é bem acentuada. Não  se percorrem longas distâncias sem avistar uma comunidade assentada na mata ciliar, que em vários pontos foi transformada em pastagem, às vezes deixando à vista altas barrancas  conhecidas como "terras caídas" que é um processo de erosão natural, mas também sofre uma aceleração por conta do desmatamento e do banzeiro que são as ondas formadas com a passagem de grandes embarcações próximas das margens do rio. Na estação das águas algumas  comunidades são  tomadas pelas enchentes, fazendo com que os ribeirinhos  recorram a enormes jangadas de troncos de madeira chamadas de maromba, que transportam pessoas, móveis e animais para locais mais altos, até que o rio volte ao seu nível normal. Fizemos a primeira parada na cidade de Itacoatiara para embarque e desembarque de passageiros e mercadorias. Neste pequeno espaço de tempo que o navio fica parado, vendedores em terra usando varas de bambu, fazem chegar até os passageiros que estão  no navio as suas mercadorias, na maioria sanduíches, refrigerantes, frutas e queijo. O pagamento é colocado em uma garrafa pet amarrada na ponta da vara e o troco volta do mesmo jeito. Tudo é feito de forma muito rápida. No final da tarde fomos tomar vinho no deck, apreciando a paisagem e um por do sol de tom dourado que refletido nas águas escuras do rio nos rendeu belas fotos. Jantamos ali mesmo uma quentinha bem básica comprada na cozinha do navio e continuamos curtindo a nossa primeira noite de cruzeiro pelo Rio Amazonas. No percurso o navio cruzou com várias outras embarcações, algumas de grande porte transportando contêineres, balsas levando carretas rodoviárias e barcos de passageiros. Ao final do primeiro dia de viagem já conhecíamos várias pessoas. Encontramos gente do Ceará e de outros estados do Nordeste que já moravam há muito tempo na região e contavam "causos" num papo animado que servia para passar o tempo. Conhecemos um rapaz do Rio Grande do Norte que morava em Manaus e estava levando um carro para vender em Natal. Famílias da região com crianças mudando de cidade em busca de emprego, enfim, várias histórias de vida dessas pessoas que tínhamos acabado de conhecer e já eram nossos amigos. Anoiteceu e aos poucos o barco foi ficando em silêncio com a maioria das pessoas se recolhendo as suas redes, enquanto o São Bartolomeu navegava calmamente ajudado pela correnteza na penumbra da noite. O céu estava um pouco nublado mas conseguíamos observar algumas estrelas e um pouco da luz da lua refletida no espelho d'Água. A visão da selva e do rio à noite é um momento único e de rara beleza. Ao mesmo tempo que transmite uma sensação de paz, a escuridão também assusta e faz com que a nossa imaginação vá "cascaviar" episódios violentos envolvendo ataques de piratas que costumam abordar as embarcações quando a noite cai e a maioria das pessoas dorme. Lembramos do caso recente que vitimou a Inglesa Emma Kelty, assassinada no município de Coari e da família de americanos, casal e dois filhos de 3 e 7 anos, cuja balsa em que viajavam foi atacada próximo  da cidade de Breves no Estado do Amapá. Para escapar dos piratas, eles pularam no rio junto com as crianças e fugiram usando uma prancha de surfe. Ficaram três dias escondidos na mata ribeirinha, comendo folhas, insetos e bebendo água do rio até serem resgatados pela polícia. Já era tarde quando fomos dormir. O vento era brando e o navio quase não balançava. Na madrugada acordei com uma forte pancada de troncos e galhos de madeira raspando o casco da embarcação. Embora usem um holofote poderoso para avistar troncos, pequenas embarcações ou algum outro objeto à deriva, as vezes o choque é inevitável. Felizmente os barcos de ferro são reforçados para resistir a essas colisões e nada de grave aconteceu. 

A saída do navio ficou marcada para terça feira, dia 31/10/17 às 12:00 horas, sendo que o embarque do carro teria que ser feito na segunda feira até as 17:00 horas, ocasião em que nós, se quiséssemos, também poderíamos ficar embarcados. Como já tínhamos hotel pago em Manaus, achamos melhor permanecer em terra para descansar, organizar nossas "tralhas", providenciar lavagem de roupas e comprar mantimentos para abastecer o frigobar durante a viagem.   Na segunda feira voltamos ao Porto de cargas no horário combinado onde o navio estava atracado, entregamos o carro com a maior parte da nossa bagagem e ficamos só com duas pequenas malas e uma mochila para facilitar o nosso deslocamento no cais de passageiros que é bastante movimentado. O Complexo Portuário de Manaus foi construído em 1907 pelos ingleses, quando a cidade vivia o apogeu da borracha, vindo a ser até hoje o maior porto flutuante do mundo. Na região  portuária, em frente ao Mercado Adolpho Lisboa, atracam centenas de navios de passageiros numa área repleta de pequenos quiosques, lanchonetes, restaurantes populares, vendedores de passagens, redes, cordas para rede, comida, carregadores e camelôs que circulam entre os barcos e passageiros num constante e barulhento vaivém. Uma verdadeira Torre de Babel! Por volta de 10:00 horas, chegamos ao píer de embarque chamado "Balsa Amarela". Nessa ocasião, o nosso taxi foi imediatamente cercado por vários carregadores que a todo custo queriam transportar as nossas malas até o navio e isso nos deixou um pouco assustados. Argumentamos que não era necessário mas diante da insistência de um deles que se apoderou da minha mochila e de uma mala resolvemos aceitar o serviço até como forma de ajudá-lo. Mesmo assim, ficamos atentos pois diante da grande aglomeração, a nossa preocupação era que ele sumisse na multidão levando os nossos pertences. Subimos a bordo e na hora de acertar o "serviço" , paguei com dez reais e aí veio a surpresa! O rapaz não aceitou e disse que o valor do carreto era R$ 50,00. Não concordei e falei que havia pago R$ 30,00 de taxi do hotel até o porto, como é que ele queria me cobrar aquele valor por um percurso tão pequeno? Para encerrar a conversa, lhe dei mais dez reais e pedi que ele fosse embora, ele ainda resmungou mas acabou se retirando. Fica a dica , se for utilizar serviço de carregador, ajuste o valor antes para evitar encrenca. Por volta de meio dia o nosso navio ainda  continuava recebendo carga, passageiros e também mais um carro. Agora eram quatro carros embarcados, algumas motos e várias mercadorias. Ficamos um bom tempo observando a movimentação das pessoas e das embarcações no terminal hidroviário, aguardando a partida do navio que já estava atrasado pois o horário previsto era 12:00horas. Aproveitamos o tempo para conhecer as instalações do navio São Bartolomeu III, que foi construído com capacidade para transportar 650 passageiros e 474 toneladas de carga. A embarcação possui sobre o porão um convés onde ficam acomodados carros, motos e cargas diversas. O primeiro e o segundo andar são reservados para as redes, sendo um andar com ar condicionado, onde também funciona a cozinha e o refeitório com banheiros coletivos nos nos dois andares. No terceiro andar funciona um pequeno bar com acesso ao deck que tem vista panorâmica. Na proa, junto  a cabine de comando estão as suítes. A nossa  ficava logo acima da cabine de comando de onde tínhamos uma vista privilegiada para o rio. Dentro do navio circulam muitos vendedores ambulantes que também oferecem comida em sistema de Delivery, cujos pratos são preparadas nos restaurantes que funcionam sobre o píer flutuante. Redes de dormir e cordas para arma-las, também são oferecidas a bordo. Aproveitamos para pedir uma quentinha e garantir o nosso almoço. Por volta de 13:00horas, depois da inspeção da Marinha, o São Bartolomeu deu alguns apitos, zarpou e aos poucos foi ganhando velocidade. Inicialmente correu pelas águas do Rio Negro até encontrar o Rio Solimões que a partir dali se juntam formando o Rio Amazonas. Para aproveitar a força da correnteza, como estávamos na direção da foz, o nosso navio seguiu pela calha central do rio. Já as embarcações que vinham no sentido oposto, ou seja, contra a correnteza, procuravam navegar próximo de uma das margens para evitar a força da água no sentido da nascente. A partir dali, começamos a ter a real noção da grandeza do Rio Amazonas que banha diretamente o Peru, Colômbia e Brasil, sendo que as suas bacias se estendem pela Bolívia, Equador, Venezuela (alguns trechos) e Guiana. Um verdadeiro mar de água doce a perder de vista! A distância de uma margem a outra, na época da cheia, pode chegar a 50 km, por conta da elevação da sua cota que pode alcançar 11,00 metros. 

Comentários recentes

06.04 | 14:19

Brigado Luiz. Dedicamos esta conquista a vocês!
Grande Abraço!

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06.04 | 11:20

Olá, pai e mãe. Muito orgulhoso pela aventura de vocês! Um grande abraço! Parabéns!

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24.02 | 14:51

Brigado ao grande amigo e Monteverdeano Alvaro pelos seus comentários!
Mario & Carmen.

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19.02 | 17:32

É contagiante mergulhar na narrativa e sentir a emoção de fazer parte dela... Parabéns amigos pelo desafio vencido... Desafio possível somente aos cortes...

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