CAMINO DE SANTIAGO 14/08/15 A 12/09/15

NOSSA HISTÓRIA
Cada peregrino contará a sua história, cada uma diferente da outra a começar pelo idioma. São milhares de pessoas de todas as idades. Religiosos, ateus, aventureiros, oriundos de mais de 140 países. A nossa história começa em abril de 2011, quando em viagem pela Europa conhecemos Santiago de Compostela e pela primeira vez nos deparamos com os peregrinos que chegavam a Catedral de Santiago vindos das mais diferentes partes do mundo, depois de cruzarem o milenar Caminho de Santiago que é considerada a maior rota de peregrinação cristã do mundo. Só no ano de 2014 recebeu mais de 240.000 peregrinos. Em 2010 (ano santo) foi o record. Mais de de 270.000 pessoas fizeram o caminho. Naquela ocasião, conversei com um peregrino brasileiro que aparentava uns 70 anos e me fez um breve relato da sua história que havia durado trinta dias partindo de San Jean Pied Port-França. A partir daquele momento começamos a pensar na ideia de cruzar a pé o norte da Espanha, seguindo o Caminho Francês, que com pouco mais de 800 quilômetros é considerado o mais tradicional de todos.

POR QUE FAZER O CAMINHO?

Cada um tem a sua explicação. Não existe um motivo igual para todos. Alguns são movidos pela fé, curiosidade, devoção religiosa, vontade de conhecer pessoas, aprender, aceitar mudanças, refletir. Amantes da natureza vão em busca das belas paisagens dos Pirineus, vinhedos, vales e bosques. Os que se interessam pela história vão desfrutar de uma vasta riqueza cultural. Podem ver cidades e pontes medievais, muralhas, igrejas romanas e góticas,ermitas, castelos... Outros vão simplesmente pela vontade de caminhar. Posso dizer que no nosso caso, o que nos fez abraçar este projeto foi a junção de todos estes motivos e principalmente a vontade de caminhar pois como temos o desafio de alcançar o cume do Aconcágua, a conquista desta meta seria além de um desafio de superação física, um teste para avaliar a nossa capacidade de resistência em longas caminhadas enfrentando condições adversas.

PLANEJAMENTO

Como haviamos planejado viajar pela América do Sul em Fevereiro de 2016, decidimos que o melhor periodo para a nossa peregrinação seria o verão de 2015 que vai de julho a setembro pois aí teriamos tempo para depois da nossa caminhada permanecer por mais sessenta dias na Europa para conhecer algumas cidades da Itália, Londres e Paris, então na companhia da nossa filha Mariellla que iríamos encontrar em Roma. O segredo do caminho está em caminhar e a regra básica é viver apenas com o essencial. Neste sentido pesquisamos na internet, adquirimos um guia prático que serviu para nos apresentar os detalhes do caminho e nos orientar quanto as coisas que deveriamos carregar na mochila de modo que o seu volume total não fosse superior a 10% do nosso peso corporal. Fizemos treinamentos com as mochilas, calçados, roupas e utensílios que usaríamos durante os dias de caminhada. O que também muito nos ajudou foram as conversas que tivemos com os amigos Ignácio Capelo e Dylvardo, este, membro da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela no Ceará que também nos forneceu a Credencial do Peregrino. Ambos já haviam feito o caminho e nos deram dicas valiosas sobre como evitar possíveis dificuldades e aproveitar melhor a viagem. Também fizemos um Check-up médico e nos preparamos em uma academia praticando exercícios fisicos e caminhadas de pelo menos uma hora por dia, mesmo sabendo que as condições do caminho não se comparam ao ambiente que escolhemos para treinar."Toda caminhada começa com o primeiro passo" e no caso do Caminho de Santiago se diz que o primeiro passo é dado ainda na porta da sua casa, que passa a ser efetivamente o início do caminho, não importando de onde você tenha saído. Tudo acertado, partimos de Fortaleza-Ce, no dia 10 de agosto de 2015 para Roma e depois mais 220 km de trem até Foligno, onde mora minha irmã Lindalva e seu marido Fabrício que nos hospedariam por alguns dias após o nosso retorno da caminhada. Lá deixamos a nossa bagagem e só com o que consideramos essencial nas mochilas, retornamos para Roma, Madrid e depois Pamplona. Chegamos em Pamplona dia 13 de agosto de 2015 onde pernoitamos. O nosso plano era chegar em Saint Jean Pied Port na manhã do dia seguinte, passar o dia por lá, pernoitar e só então na manhã do dia seguinte, iniciar a subida dos Pireneus até Roncesvalles num total de 27,1km para o primeiro dia de caminhada que é considerado um dos trechos mais bonitos e também o mais difícil de todos. Em Pamplona, o motorista do táxi que nos pegou no aeroporto ja havia feito o Caminho de Santiago, falava Português pois havia morado na Praia da Pipa-Rn, nos levou ao hotel e no dia seguinte a SJPP. No caminho conversamos bastante e ele nos deu várias dicas e nos convenceu a iniciarmos a subida dos Pireneus naquele mesma manhã pois o tempo estava nublado, a temperatura amena e a possibilidade de chuva era pouca. Naquela ocasião ele já nos advertiu sobre o peso das nossas mochilas que achou excessivo. Argumentamos que já haviamos treinado com aquele peso e que estávamos levando apenas o essencial. Decidimos então pelo início da caminhada naquela manhã pois a apreensão que nos dominava dificilmente iria nos proporcionar uma noite de sono tranquila na pequena e charmosa SJPP que nem chegamos a conhecer em detalhes. Todos sentem medo e um frio na barriga até dar o primeiro passo!

PRIMEIRO DIA - SANT JEAN PIED PORT A ORISSON - 7,5 KMM

Com alguma dificuldade por conta da lingua francesa que não dominamos e que é falada em SJPP (os franceses não gostam de falar outra língua) fomos a uma loja, compramos nossas capas de chuva, carimbamos a Credencial del Peregrino e por volta de 9:00 botamos o pé na estrada. Logo no início fomos saudados por pessoas que nos identificavam como brasileiros pelas bandeiras presas nas nossas mochilas e gritavam Brasil, Brasi,Brasileirosl! isto nos deixou emocionados! E foi sempre assim durante toda a caminhada. Como brasileiros sempre fomos muito bem recebidos por onde andamos. Encontramos um casal que nos desejou "buen camino" mas logo desapareceu. No caminho todos são solidários mas cada um anda no seu rítimo. Pouco tempo depois tivemos que parar e nos preparar para a chuva que começava a cair. Mais adiante paramos para lanchar e outros peregrinos foram passando. Um alemão nos identificou como brasileiros, parou para conversar e "tirar sarro" pela nossa derrota de 7 a 1 frente a Alemanha. Falou que estava fazendo o caminho pela segunda vez e seguiu. Um pouco mais na frente voltamos a encontra-lo e ele parado reclamava de dor no pé, ai foi a nossa vez de seguir. Um cenário belíssimo de muito verde e um silêncio só interrompido pelo canto dos pássaros e pelas nossas pisadas e de outros peregrinos. Depois de percorrermos 7,5km chegamos no refúgio de Orisson. O cansaço, as dores musculares pelo esforço da subida e o peso da mochila já nos incomodava. Resolvemos parar e pernoitar ali. Foi uma decisão acertada pois certamente teríamos muita dificuldade de alcançar a cidade de Roncesvalles naquele dia. Dorminos a primeira noite em um albergue e começamos a nos acostumar com as suas regras: os calçados ficam fora do quarto, tempo de banho cronometrado em cinco minutos, quarto coletivo com camas tipo beliche, silêncio a partir das 22:00 hs, refeição compartilhada, hora para deixar o quarto, etc. Alí conhecemos as primeiras pessoas que teríamos como companhia nos dias seguintes. Todos de outras nacionalidades e ninguém falava Português, mas mesmo assim conseguiamos nos comunicar.

SEGUNDO DIA: DE ORISSON A RONCESVALLES - 18,5 KM

Fomos os últimos a deixar o albergue e a hospedeira praticamente nos expulsou dizendo em francês que já era hora de sairmos. Tivemos que nos calçar e terminar de arrumar nossas mochilas fora do quarto. Saímos por volta de sete da manhã e tome mais subida! Mantivemos o nosso rítimo e fomos passando por pessoas que tinham saído mais cêdo, outras pessoas também nos cumprimentavam e passavam. Encontramos o primeiro brasileiro que fazia a caminhada. Conversamos um pouco e ele se despediu dizendo: "vou seguir na minha solidão" !. Alguns peregrinos como já demonstrando cansaço, passavam a sentir a partir do segundo dia a real dimensão do que é encarar o Caminho de Santiago. Mas mesmo assim, todos demonstravam felicidade e sorriam! A endorfina liberada pelo esforço da caminhada melhora o humor e produz uma sensação de felicidade que nos empurra sempre para frente. Ninguém quer parar! O importante é entender que o caminho não é uma competição e que o melhor da viagem está em cada dia e em cada jornada e não no objetivo único de alcançar o destino final. Esta percepção tivemos mesmo antes de começar o caminho e combinamos parar se algum problema nos impedisse de caminhar com tranquilidade. Neste dia enfrentamos chuva, vento, caminhos escorregadios com pedregulhos e lama. Chegamos em Roncesvalles no final da tarde literalmente "só o bagaço da laranja" eu com muitas dores nas costas e nos pés havia chegado ao meu limite! Começei a pensar na possibilidade de não prosseguir na manhã seguinte e dencansar ali por mais um dia. A Carmen sentiu menos e estava disposta. Dorminos no Albergue Conventus Hospitalis Roscidevallis, considerado um dos mais bem estruturados do caminho e por volta de 4:30 da manhã acordamos com muitas pessoas já deixando o local. Havia tomado relaxante muscular antes de dormir e acordei mais disposto. Decidimos seguir!

TERCEIRO DIA: DE RONCESVAVALLES A ZUBIRI - 21,5KM

Fazia 10° C quando deixamos o albergue por volta de seis da manhã mas a sensação térmica era de cinco. O vento gelado batia no rosto e mesmo com a proteção dos óculos os meus olhos não paravam de lacrimejar. Era como se eu estivesse chorando. Uma placa logo na saída anunciava 790 km até Santiago de Compostela. Nestas horas instintivamente o corpo parece querer recuar! Esta sensação sentimos em várias ocasiões quando o cansaço, as dores musculares, as bolhas nos pés passavam a nos incomodar e vinha a vontade de querer desistir. Isto lembra muito cada capítulo resumido das nossas vidas. Você vai sendo testado a cada dia, em várias situações e passa a refletir sobre fatos antigos e recentes, momentos felizes, tristes, novos projetos, metas pessoais, passa um filme... Lembramos de uma senhora que conhecemos no refúgio de Orisson. Aparentava uns setenta e cinco anos, exergava pouco e caminhava com muita dificuldade auxiliada por dois cajados. Questionávamos como ela conseguiu vencer aquela etapa tão difícil do caminho, sendo possuidora de todas aquelas limitações? Mas todos os dias, enquanto podemos vê-la, lá estava ela caminhando e chegando ao seu destino sendo saudada por todos. Achamos incrível a disposição daquela senhora. Depois não a vimos mais. Não sabemos se ela completou o caminho.

QUARTO DIA: DE ZUBIRI A PAMPLONA - 22,0 KM

Já estávamos nos habituando com a rotina dos albergues e aos poucos nos acostumando a acordar cedo para caminhar. Uma das preocupações que tínhamos com relação a orientação do caminho já não nos incomodava. A rota é toda sinalizada com setas amarelas nas casas, no chão, em árvores, feitas de pedras, totens e através de informações trocadas entre peregrinos e com os moradores encontrados nos pueblos, mas mesmo assim, um momento de desatenção pode levar o peregrino a percorrer alguns quilometros até perceber que está no caminho errado. Na nossa chegada em Pamplona o hospedeiro ficou impressionado com o peso das nossas mochilas e trouxe a balança para conferir. Ficou assustado com o resultado! A minha mochila estava com quase quinze quilos e a da Carmen com quase dez. Exageramos no que deveria ser o essencial e isto estava nos causando problemas nos pés e nas articulações.

QUINTO DIA: DE PAMPLONA A UTERGA - 19,2KM

Como sempre fazíamos, a noite traçavamos a nossa meta de caminhada do dia seguinte obtendo informações nos albergues e consultando o nosso guia comprado ainda no Brasil. Na manhã do quinto dia conhecemos uma brasileira que havia dormido no mesmo quarto conosco e estava folheando um guia igual ao nosso. Nos cumprimentamos e eu falei que tínhamos um guia igual. Na mesma hora ela guardou o guia na mochila e respondeu que aquele ela tinha trazido do Brasil. Juntou rápidamente as suas coisas e foi embora. Apressada, esqueceu o seu cajado que logo depois voltou para buscar e novamente saiu apressada chegando inclusive a correr, desapareceu da nossa vista em minutos. Mais tarde quando procuramos na mochila o nosso guia para conferir o percurso do dia não encontramos. Ai passamos a entender a pressa da nossa compatriota. Ainda encontramos esta pessoa por duas vezes e nas duas ocasiões pedi que ela me emprestasse o seu guia para que pudéssemos fotografar os mapas do caminho pois havíamos perdido o nosso e estávamos sem nenhuma orientação, mas ela sempre encontrava uma desculpa para não nos atender. Como tínhamos feito algumas anotações se o guia fosse nos emprestado, facilmente o mesmo seria reconhecido. Compramos um novo guia e não vimos mais esta pessoa. Também não sabemos se ela concluiu o caminho.

SEXTO DIA: DE UTERGA A ESTELLA - 30,1KM

Caminhar por longas distâncias todos os dias, por superfícies irregulares, manhãs frias e tardes muito quentes, sol, chuva e ventos fortes, deixam o corpo e a mente eletrizados por conta do esforço e da movimentação intensa. Muitas vezes o sono não chega na hora certa e quando iámos para a cama ainda era claro, neste caso a dificuldade para dormir ficava ainda maior, o corpo não se aquietava. Procurávamos assim, compensar um pouco esta inquietação tomando um pouco de vinho para relaxar ao final de cada jornada, funcionou! No sexto dia muitas pessoas que vimos no início da caminhada não encontravamos mais. Uns porque já estavam bem na frente, outros porque ficaram para trás e outros porque já haviam por algum motivo desistido. Lembro do nosso segundo dia de caminhada quando vimos um senhor Alemão que se destacava dos demais pelo seu jeito de caminhar muito elegante. Equanto outras pessoas desprendiam um esforço enorme para vencer subidas mais ingremes ele parecia não demonstrar nenhuma dificuldade. No terceiro dia já o vimos abandonando o caminho em um táxi. O seu compatriota que também vimos no primeiro dia, que fazia o caminho pela segunda vez, também o vimos saindo de carro do refúgio para resgatar a sua mochila que havia ficado para trás e depois também não o vimos mais. Resumo da ópera: O caminho é para todos mas não é para qualquer um, precisa também ter coragem, raça, gana, sangue no olho como se diz popularmente.

SÉTIMO DIA: DE ESTELLA A TORRES DEL RIO - 35,5KM

Sabiamos muita coisa do caminho através de leituras , conversas com outros peregrinos mas sempre nos deparávamos a cada dia com algum tipo de emoção ou surpresa. Uma das nossas preocupações eram relatos de cães ferozes que atacavam os peregrinos no caminho. Diferente do que falaram alguns peregrinos e como também é contado pelo escritor Paulo Coelho em seu livro o Diário de Um Mago sobre cães ferozes, em nenhum momento tivemos a nossa integridade física ameaçada por algum destes animais. O que encontramos foram cães também fazendo o caminho ao lado dos seus donos e os que encontramos soltos eram dóceis. Os cães de guarda que tinham um comportamento mais agressívos e latiam ante a aproximação de algum peregrino, estavam sempre presos por coleiras ou confinados dentro de cercados ou galpões fechados. Chamados de "perros" pelos espanhóis, li que existiram alguns cães que ficaram famosos no caminho por escolher peregrinos que passavam a acompanhar por dezenas de quilômetros e vários dias, para depois retornarem por via rodoviária para o seu lugar de origem conduzidos por pessoas da região que os conheciam. Um deses cães chamado "Calixto" era o mais famoso e chegou a aparecer em várias reportagens. Mesmo assim existem registros confirmados de pessoas que foram atacadas e nesta ocasião o cajado passa a ser a melhor defesa. A grande surpresa desta jornada foi encontrarmos na cidade de Irache uma fonte de vinho na qual o peregrino pode se servir à vontade.

OITAVO DIA: DE TORRES DEL RIO A LOGRONO - 20,3KM

No dia Anterior apesar de termos percorrido 35,5 KM, haviamos chegado cedo em Torres del Rio e conseguimos uma boa acomodação no Albergue Casa Mariela que escolhemos por conta do nome da nossa filha que também se chama Mariella. Naquele dia vimos vários peregrinos seguirem viagem pois os leitos disponíveis na cidade se esgotaram rápido. Neste dia conhecemos mais um brasileiro que teve de seguir viagem pois não encontrou acomodação e um casal, também de brasileiros que faziam o caminho de bike e penoitou no mesmo albergue. A nossa pousada oferecia banho de piscina e para quem enfrenta temperaturas escaldantes não existe coisa melhor. Tomamos banho à vontade para relaxar , bebemos vinho e cerveja para comemorar. Conhecemos uma portuguesa e dividimos a mesa com um casal de franceses que entendia e falava um pouco de portugûes. Tudo perfeito! No dia seguinte acordei com uma dor muito forte no quadril que quase me impedia de caminhar. Seria para mim mais um teste. Tomei medicamento para dor, massageei o local , coloquei um emplastro com um gel que gruda na pele mas nada adiantou. A dor era intensa. Neste dia decidimos despachar as nossas mochilas para o nosso destino pois eu mal tinha condições de suportar o peso do meu corpo. Seguimos caminho... A dor não cedia! Parei diversas vezes no caminho para descansar e repeti a medicação sem sucesso. Finalmente chegamos em Logrono mas as nossas mochilas não haviam chegado no albergue que havíamos indicado. A hospedeira do albergue nos encaminhou para outro hotel e lá também as nossas mochilas não estavam. Gentilmente a recepcionista fez várias ligações e finalmente conseguiu localizá-las em outro albergue que não era o que tínhamos escolhido. Fomos lá, recolhemos os nossos pertences e retornamos para o hotel. Naquele dia eu precisava descansar e me tratar. Ficamos em um quarto privado e decidimos aliviar o peso das nossas mochilas despachando cerca de 10kg de bagagem para Santiago de Compostela.

NONO DIA: DE LOGRONO A NÁJERA - 31,0 KM

Amanheci bastante aliviado da dor que havia me incomodado no dia anterior e iniciamos o dia fazendo um percurso tranquilo pois agora estavamos com a carga compatível com o nosso peso corporal. Um senhor alívio! Neste dia completamos 25% do percurso, totalizando exatos 205,6km. Ficamos animados e decidimos que sempre que  possível adiantariamos alguns quilometros a cada dia para cumprirmos a meta  de 30 dias que haviamos inicialmente planejado. Pessoas que marcaram a nossa história como as italianas Corina e Sophia (mãe e filha) a partir do nono dia não encontramos mais. Nos comunicamos via e-mail e ficamos sabendo que elas concluiram o caminho quando já estavamos em Roma.

DÉCIMO DIA: DE NÁJERA A GRAÑÓN - 27,3 KM

Neste dia percorremos uma grande extensão do caminho a céu aberto com vegetação rasteira debaixo de muito sol mas fomos compensados no final do dia com um albergue novinho e muito confortavel. Este albergue é administrado por um ex-peregrino português casado com uma ex-peregrina espanhola que decidiram investir no turismo. Eles também fazem o transporte de mochilas que custa em média cinco euros por mochila em cada trecho transportado. Jantamos juntos e conversamos bastante e ele nos contou que quando fez o caminho pela primeira vez tinha no bolso apenas 300 Trezentos Euros, mas mesmo assim conseguiu completar o caminho dormindo e fazendo refeições em albergues gratuitos ou de baixo custo, administrados pela igreja ou pelo munícipio. Também no caminho se encontram pessoas que fazem donativos de alimentação para os peregrinos que não dispõem de recursos financeiros. Alguns peregrinos usam o saco de dormir e pernoitam em igrejas, praças ou mesmo na casa de algum hospedeiro voluntário. Por falar em custo, deixando de fora o valor das passagens para chegar até San Jean Pied Port, o custo do caminho é acessível a todos os bolsos. Em média, dependendo do nível de exigência de cada um, existe uma estimativa de custo médio por perfil de peregrino para fazer o caminho em trinta dias: PEREGRINO PARCIMONIOSO: Para quem dorme em albergue municipal ou da igreja, faz a comida no próprio albergue e divide os gastos com outros peregrinos o custo médio é de 900 a 1.000 Euros. PEREGRINO COMEDIDO: Dorme em albergues privados e eventualmente em hóteis ou casas rurais, toma café da manhã e lancha nos bares, almoça um bocadilho, janta o Menu do Peregrino (prato principal, sobremesa e vinho) vai gastar em média 1.500 a 1.600  Euros. PEREGRINO EXIGENTE (TOP): Os que não querem abrir mão do conforto, chamados de "turigrinos" (turista+peregrino) dormem em hotéis ou Casas Rurais todos os dias, almoçam e jantam o Menu do Peregrino, pagam o transporte da mochila todos os dias, neste caso o custo estimado fica na casa dos 3.000 a 3.100 Euros.

DÉCIMO PRIMEIRO DIA: DE GRAÑÓN A VILA FRANCA MONTES DE OCA - 28,6 KM

Vou retornar um pouco para relatar uma curiosa lenda da cidade de Santo Domingo de la Calzada que fica a 3 km antes de Grañón onde pernoitamos ontem e que merece registro: "Conta-se que uma familia alemã, marido esposa e o filho de nome Hugonell que viajavam pelo Caminho de Santiago dormiram em uma pousada em Santo Domingo de la Calzada. Uma camareira se encantou pelo jovem alemão filho do casal que não aceitou as suas investidas. Se sentindo rejeitada a moça resolveu se vingar e colocou um copo de prata entre os pertences do rapaz, acusando-o de furto. Mesmo inocente o rapaz foi preso e condenado a forca. Seus pais, desolados continuaram a peregrinação até Santiago. Na volta, pararam em Santo Domingo e para grande surpresa o rapaz ainda estava na forca porém vivo. Os pais foram até o juiz que num ato de deboche disse que só acreditaria que o filho deles estivesse vivo se o galo que ele estava comendo cantasse, e o galo cantou! O jovem foi inocentado e o milagre atribuído a Santo Domingo". Na Catedral de Santo Domingo de la Calzada encontra-se um belíssimo galinheiro em estilo gótico, onde vivem um imponente galo e uma galinha brancos que são substituidos a cada 30 dias. Estes galos e galinhas são criados em um galinheiro mantidos pela mesma confraria que mantém o albergue de peregrinos de Santo Domingo de la Calzada e também guarda os restos da forca utilizada para enforcar o jovem Hugonell. Dizem que ao entrar na Catedral se o galo ou galinha cacarejarem é sinal de muita sorte!

DÉCIMO SEGUNDO DIA: DE VILA FRANCA MONTES DE OCA A BURGOS - 42,0 KM

Este foi um dos dias mais cansativos de todo o trajeto. Logo no início da manhã percorremos mais de 12 quilômetros em região de floresta sem nenhuma estrutura de apoio. Nestas circunstâncias é essencial se precaver levando água e alimentação em quantidade suficiente para qualquer emergência, mas com cuidado para não sobrecarregar o peso da mochila. Os dez quilômetros que antecederam a nossa chegada a Burgos pareciam intermináveis. Um caminho sem nenhum atrativo, debaixo de um sol impiedoso. Seguimos margeando uma rodovia em uma região industrial com muitas fábricas. Em alguns momentos não víamos nenhuma sinalização e tivemos que pedir informações as pessoas que encontrávamos pelo caminho. Finalmente entramos em um parque muito arborizado seguindo a margem do Rio Arlazon que corta boa parte da cidade, até chegar no final da tarde a imponente Catedral de Santa Maria de Burgos que impressiona pela sua beleza e grandiosidade. Da mesma forma também impressiona o Albergue Municipal que funciona em um bonito prédio do seculo XVI ao lado da catedral. Este albergue é exclusivo para peregrinos e todos precisam apresentar a credencial carimbada desde o início da caminhada. Cedo a hospedeira, a mesma senhora idosa que nos recebeu e recomendou que tivessemos muito cuidado com o dinheiro e com os nossos pertences, passou acordando quem ainda estava na cama, puxando o lençol de quem dormia e pedindo que desocupassem o local. Em pouco tempo, aquele albergue grandioso estaria em silêncio e completamente vazio, sendo preparado para outros peregrinos que começariam a chegar no início da tarde. Esta rotina se repete todos os dias.

DÉCIMO TERCEIRO DIA: DE BURGOS A HONTANAS - 30,8 KM

Em função das lesões que começavam a surgir nos nossos pés, comuns na maioria dos peregrinos, todos os dias tínhamos que acordar mais cedo e tomar alguns cuidados preventivos antes de iniciar a caminhada, usando vaselina para diminuir o atrito dos pés com o calçado, esparadrapo, compeed, além das nossas meias de camada dupla próprias para trekking. Por conta das subidas e descidas constantes, as lesões mais comuns são "unha preta" causada pela batida constante dos dedos contra o calçado. O acúmulo de sangue debaixo da unha a descolore e na maioria das vezes cai provocando inflamação. As "bolhas" causadas pelo atrito prolongado entre o pé a meia e o calçado, precisa ser imediatamente drenada com uma agulha e linha, sem no entanto retirar a pele. Naquela manhã logo que iniciamos a caminhada fomos cercados por um grupo de turistas de várias nacionalidades que através do seu guia nos faziam perguntas diversas sobre o caminho e ficavam surpresos em saber que já havíamos percorrido a pé mais de trezentos quilômetros desde Saint Jean Pied Port. Nos parabenizavam e alguns diziam que conheciam o Brasil (Rio, Sao Paulo) fazendo elogios as belezas do nosso pais! Depois de algumas fotos e cumprimentos seguimos em nossa caminhada e chegamos ao nosso destino por volta de 17:00 hs. Neste dia conhecemos um casal de brasileiros de Porto Alegre, Francisco e Mônica, um alemão e uma francesa com quem compartilhamos o jantar e algumas taças de vinho. Foi uma noite muito agradável! No dia seguinte saímos com o nascer do sol. O alemão andava muito rápido e logo o perdemos de vista mas ficamos nos comunicando via e-mail. A francesa ficou para trás e nunca mais a vimos e os brasileiros ficamos encontrando em outras ocasiões até a nossa chegada em Santiago de Compostela onde nos confraternizamos em um almoço de despedida.

DÉCIMO QUARTO DIA: DE HONTANAS A BOADILLA DEL CAMINO - 29,0 KM

Hoje resolvemos dar uma de "turigrino" e nos hospedamos em um Hotel Rural bastante confortável com todas as mordomias de um cinco estrelas para compensar os três últimos dias de ritmo intenso que totalizaram mais de 100 km. Na recepção do hotel fomos abordados pelo proprietário do restaurante que fica ao lado da casa rural, que nos vendo usando camisas que ostentavam a logomarca da Petrobras, onde trabalhei por 33 anos, começou a falar que a roubalheira dos políticos e dos seus diretores tinham quebrado a empresa. A Petrobras não vale mais nada! exclamou. É impressionante como os efeitos negativos de uma gestão corrupta corre o mundo. Uma reação totalmente diferente de quando em setembro de 2013 estávamos em Machupicchu, usando as mesmas camisas e fomos saudado por um Norte Americano que reconheceu a mesma logomarca e fez um entusiasmado sinal de positivo para atestar a sua admiração pela empresa que até 2012 figurava como a 10ª maior do mundo em qualquer segmento.

DÉCIMO QUINTO DIA: DE BOADILLA DEL CAMINO A CARRION DE LOS CONDES - 25,7 KM

No início deste percurso existe uma extensa área agrícola cortada pelo Canal de Castilla construído ainda no século XVIII que possui entre as suas redes 207 km de extensão. Foi construido na época com o objetivo de irrigar e facilitar o transporte dos produtos produzidos nesta região. Dia de caminhada bastante tranquila sem maiores dificuldades.

DÉCIMO SEXTO DIA DIA: DE CARRION DE LOS CONDES A LEDIGOS - 23,4 KM

O nosso mapa alertava para um percurso de 17 km sem nenhuma infraestrutura de albergue, restaurante ou lanchonete. Tivemos que nos prevenir com água e alimentação. Peso extra na mochila! Este trecho é uma reta que parece não ter fim com pouca vegetação e muito sol mas para compensar, feito em superfície plana de onde se parte com 839 msnm e chega-se ao destino com 883msn. Um ganho de altitude de apenas 44m em 23,4 km quase nada. Dia de caminhada considerada fácil. Chegamos cedo no albergue que é gerenciado por um brasileiro que já fez o caminho seis vezes, segundo ele em todas as estações do ano. Aqui Completamos a metade do caminho totalizando mais de 410 km. O albergue possui um bom restaurante e comemoramos jantando uma paella acompanhada de um bom vinho.

DÉCIMO SÉTIMO DIA: DE LEDIGOS A EL BURGO RANERO - 31,8 KM

Deixamos a pousada com escuro e uma lua de prata iluminava o nosso caminho. O céu estava limpo e aparentemente sem ameaça de chuva. Por conta do escuro, logo no início da caminhada quase tomamos um destino errado mas logo percebemos o engano e voltamos para a rota certa. Seguimos caminhando por quase duas horas quando de repente o tempo começou a fechar. Pensamos em parar e nos abrigar em um viaduto mas como já avistávamos um povoado próximo resolvemos seguir. Não tínhamos mais capa de chuva pois havíamos despachado para Santiago de Compostela para aliviar o peso. Assim, colocamos as capas de proteção  das mochilas e seguimos. Em poucos minutos fomos surprendidos por uma tempestade que nunca tínhamos visto antes e sem nenhuma possibilidade de abrigo ou refúgio. Não tinha outra alternativa era só rezar e seguir em frente! Chuva forte, vendaval, relâmpagos, raios cortando o céu e trovões ensurdecedores. Seguimos neste sufoco por pelo menos uns quinze minutos até que a tormenta foi diminuindo. Chegamos na cidade de Sahagun, procuramos abrigo em uma pequena padaria, tomamos café secamos as roupas e seguimos viagem. Este foi o maior sufoco que passamos em toda caminhada mas tudo acabou bem. Um teste para avaliar a nossa determinação.

DÉCIMO OITAVO DIA: EL BURGO RANERO A LEÓN - 40,0 KM

No albergue de El Burgo Ranero encontramos dois brasileiros que faziam o caminho de bicicleta. Trocamos algumas informações e voltamos a nos encontrar no dia seguinte rapidamente na estrada. As pessoas que fazem o caminho de bike são chamados de "bicigrino" e percorrem em média 80 km por dia. Como este percurso era quase todo em uma região plana e não apresentava grandes dificuldades, resolvemos sair ainda com escuro para cumprir a meta de 40 quilômetros que havíamos estabelecido para aquela jornada. Estávamos um pouco apreensivos diante da possibilidade de chuva prevista para a região pois ainda não estávamos plenamente recuperados do susto que havíamos passado no dia anterior. Pelo que pesquisamos, o verão, estação que escolhemos que vai de julho a agosto é considerado um dos períodos mais procurados pelos peregrinos por conta das condições climáticas mais favoráveis. Sabemos que ninguém pode esperar dias perfeitos durante toda rota, mas nesta época o peregrino não é tão castigado pelo frio. Em compensação, terá dias de sol muito forte com algumas pancadas de chuva. Irá dispor de mais tempo para caminhar e contemplar as belezas do caminho mas poderá ter dificuldade para encontrar hospedagem nos albergues municipais que são mais baratos, por conta da alta demanda. A primavera que vai de abril a maio também é muito procurada mas ainda é menor que o verão. Nesta época o peregrino vai encontrar um clima bastante ameno, com alguma possibilidade de chuva mas não muito intensas. Na verdade o que vale muito a pena é o colorido das flores que mudam completamente a paisagem do lugar, fazendo da caminhada uma experiência muito agradável. O outono que vai de outubro a dezembro se revela como o a temporada bastante desafiadora pois a neve já começa a aparecer em lugares de maior altitude como os Pirineus e Cebreiro. As paisagens são belíssimas mas o ar gelado torna muito difícil a realização dos trajetos, sem contar que em função do baixo número de peregrinos muitos albergues fecham tornando difícil a hospedagem em algumas cidades. O inverno que vai de janeiro a março é conhecido como um periodo crítico e altamente desaconselhado. Muitos peregrinos já morreram fazendo o caminho nesta época. O frio é super rigoroso e a maioria dos albergues ficam fechados.

DÉCIMO NONO DIA: DE LEÓN A HOSPITAL DE ORBIGO - 31,4 KM

Um fato que nos chamou atenção ontem quando chegamos em Leon foi a completa tranquilidade das ruas, muitas lojas fechadas e as que estavam aberta não tinham nenhum movimento. A impressão que tivemos era a de estarmos chegando na cidade em um feriado. Nada disso! Em Leon ficou evidente a prática da "siesta" o tradicional sono dos espanhóis depois do almoço que vai de 14:00 às 17:00 horas. Neste horário a maioria dos comércios ficam fechados. Esta mesma experiência tivemos em Granada quando fomos pela primeira vez a Europa. Depois das dezessete horas o comércio voltou a funcionar e o movimento nas ruas voltou a fluir normalmente. Ficamos em um albergue muito bom, tudo novinho, limpo e confortável, mas o nosso sono foi bastante prejudicado por um senhor que ao nosso lado, cedo começou a roncar e foi assim até a manhã do dia seguinte. É comum nos albergues termos pessoas roncando ao nosso lado, mas os decibéis emitidos naquela noite passaram do limite. Não conseguimos dormir! Levantamos cedo, passamos pelo centro histórico para conhecer a Catedral de Santa Maria e seguimos viagem. Leon é uma cidade grande e tivemos que caminhar bastante até sair da sua área urbana.

VIGÉSIMO DIA: DE HOSPITAL DE ORBIGO A MÚRIAS DE RECHIVALDO - 19,8 KM

Uma noite mal dormida acumulada com o trajeto de mais de 70 km feito nos dois últimos dias nos deixaram bastante cansados. Chegamos em Hospital de Orbigo ao final da tarde muito cansados e de cara entramos no primeiro hotel. Não fomos procurar albergue! Ficamos em um apartamento com banheiro privado, cama confortavel e um bom restaurante onde jantamos um cordeiro com um bom vinho. A cidade de Hospital de Orbigo foi no passado palco de muitas batalhas medievais e a imensa ponte construída sobre o rio que dá nome a cidade lhe proporciona um visual todo especial.

 

VIGÉSIMO PRIMEIRO DIA: DE MÚRIAS DE RECHIVALDO A ACEBO - 32,8 KM

No dia anterior, ao passarmos por Astorga encontramos uma loja especializada em esporte de aventura e experimentamos um modelo de sandália apropriada para a prática de trekking. Aprovamos e adquirimos na hora por ser um calçado altamente resistente e confortável que foi sem dúvida um grande trunfo para enfrentarmos as dificuldade do caminho nos dias que se seguiram. Aquela altura eu já estava com cinco "unhas pretas" que mais tarde viriam a cair e não conseguia mais calçar as botas. A Carmen também já estava com algumas lesões formadas por bolhas e unhas pretas, sem contar que ela já fez cirugia de Joanete nos dois pés. A partir dali começei a alternar as sandálias com tênis e foi assim que consegui caminhar com mais tranquilidade. A Carmen literalmente não tirou mais as sandálias. Logo depois de encontrarmos dois casais de brasileiros que faziam o caminho de bike. O Brasil, segundo as estatísticas, está na oitava posição entre os paises que mais enviam peregrinos ao caminho todos os anos, ficando atrás da Espanha, Alemanha, Itália, França, Portugal, Estados Unidos e Irlanda. Encontramos um albergue muito agradável e ali resolvemos pernoitar. No albergue trabalhava uma brasileira como voluntária e preparou para nós um jantar muito saboroso. Conversamos bastante com a brasileira e com duas holandesas e depois fomos dormir. Ficamos em um salão com pelo menos trinta pessoas e por volta de meia noite levantamos para ir ao banheiro. Quando voltamos fomos abordados por um alemão que aos gritos reclamava pedindo silêncio e de alguma forma nos insultando. A maioria das pessoas acordaram assustadas sem entender o que estava a acontecendo. A Carmen rebateu os insultos falando em inglês, o alemão continuou resmungando, depois se calou mas permaneceu em pé próximo da porta como se esperasse outras pessoas para também insultar. Cedo tínhamos encontrado este mesmo alemão tomando cerveja e provavelmente ele estava alcoolizado. Ninguém se mexia e todos aparentemente voltaram a dormir. Ficamos acordados e apreensivos temendo que o alemão tentasse nos agredir quando estivéssemos dormindo. As pessoas pareciam nervosas com o acontecido. Ao levantarem pela manhã ainda com escuro, ninguém fazia barulho dentro do quarto. Todos juntavam os seus pertences e iam para a recepção do albergue. Só o alemão permanecia no quarto fingindo dormir. Contamos o ocorrido para o dono do albergue que pediu desculpas pelo ocorrido. Quando terminamos o café só ele permanecia no quarto. Entrei e lhe encarei com um olhar de reprovação. Ele baixou a cabeça e não me encarou. Achamos que foi melhor assim, comprar uma briga não era o nosso objetivo. Foi a última vez que o vimos. Neste dia fizemos uma das partes mais emocionantes do caminho. Foi quando passamos pela Cruz de Ferro que tem um grande simbolismo para quem percorre o Caminho de Santiago. Lá os peregrinos após fazerem os seus pedidos e orações, deixam pedras, alguns pertences, mensagens para familiares e amigos ao pé da cruz. Faz parte da tradição e muitos peregrinos trazem uma pedra desde o início do caminho, as vezes do seu país para deixa-la ali! Acreditam assim que deixar pedras ou objetos na Cruz de Ferro representa o antes e o depois das suas vidas. Trata-se de um momento de fé. É como deixar um problema para trás, superando-o! Ainda na Cruz de ferro encontramos um grupo de brasileiros que viajavam pela Espanha de moto e ficaram surpresos e ao mesmo tempo impressionados com o nosso projeto pois não conheciam em detalhes o que é o Caminho de Santiago.

VIGÉSIMO SEGUNDO DIA: DE ACEBO A COLUMBRIANOS - 20,7 KM

Até o nosso destino o dia foi bastante difícil. Depois de passarmos pela Cruz de Ferro enfrentamos uma acentuada diferença de relevo com uma descida muito forte formada por caminhos estreitos com bastante dificuldade para serem percorridos mas com uma bela paisagem. Vimos helicópteros da polícia sobrevoando a região e soubemos depois que as buscas pela peregrina Norte Américana Denise Pikka Thien, desaparecida nas proximidades de Astorga desde 5 de abril de 2015 haviam sido restabelecidas. Pressionado pelo governo americano que chegou a oferecer a colaboração do FBI, o governo espanhol acionou cerca de 300 policiais de uma unidade especializada que passarm a vasculhar a região próxima de Astorga onde a peregrina foi vista pela última vez, e relatou para algumas testemunhas que faria naquele dia uma etapa de 14 quilômetros. Dividimos o quarto com dois senhores Norte Americanos que faziam o caminho de bike. Ao nos acomodarmos um dos "bicigrinos" foi logo entregando o seu companheiro dizendo que ele roncava muito. Até que não! O nosso sono foi tranquilo e ficamos um pouco mais tarde no albergue. Saímos por volta de 8:00 hs.

VIGÉSIMO TERCEIRO DIA: DE COLUMBRIANOS A LA PORTELA DE VALCARCE - 32,2 KM

No início do dia continuamos por um caminho cheio de desníveis, em alguns pontos passamos por parreirais e na margem da estrada predominava um arbusto de pequenas frutas comestíveis muito saborosas conhecidas como "frutas del bosque" muito apreciada pelos peregrinos. Estávamos nos aproximando da Região da Galícia onde algumas pessoas ainda falam o Dialeto Galego, muito parecido com o português do Brasil e de Portugal, tanto que há quem o chame de "português da Galiza". Caminhamos por longo tempo junto a uma rodovia muito movimentada porem em terreno plano, até chegarmos no final da tarde em La Portela de Valcarce. Dormimos em um bom hotel na margem da rodovia, nos alimentamos bem e descansamos para a próxima jornada até Cebreiro, considerado o segundo trajeto mais difícil a ser percorrida depois da primeira etapa entre Saint Jean Pied Port e Roncesvalles.

VIGÉSIMO QUARTO DIA: DE LA PORTELA DE VALCARCE A CEBREIRO - 15,80 KM

Um caminho repleto de belas paisagens naturais mas muito difícil de ser percorrido. Neste trecho vimos pela primeira vez alguns peregrinos que faziam o caminho a cavalo. O Cebreiro é um dos lugares mais míticos do caminho. Fica no alto da montanha Piedrafita del Cebreiro a 1300 metros de altitude. A cidade é repleta de "pallozas" construções pré-românicas de formato circular construídas de pedra e cobertas de centeno, provavelmente de origem celta. Lá está o templo de Santa Maria La Real, a igreja mais antiga do caminho construída em meados do século IX por monges beneditinos. Nesta igreja assistimos a missa e a Carmen participou da cerimônia lendo uma das passagens em português. Foi nesta igreja que segundo os crentes aconteceu o milagre do Santo Graal, onde durante a missa o pão e o vinho que eram consagrados, transformaram-se no corpo e no sangue de Jesus Cristo. Os restos deste milagre são guardados até hoje no templo em um relicário doado em 1486 pelos Reis Fernando Aragão e Isabel de Castela que naquele ano faziam peregrinação a Santiago.

VIGÉSIMO QUINTO DIA: DE CEBREIRO A TRIACASTELA - 21,0 KM

Deixamos O Cebreiro, e o caminho continuou difícil, agora pela forte descida que se inicia no Alto do Poio. Depois iniciamos uma nova subida e passamos pelo Alto de San Roque. Paramos para fotografar o Monumento do Peregrino, uma estátua de bronze construída a 1.270 metros de altiude que se constitui em um dos principais monumentos da rota na região da Galícia. Voltamos a ouvir comentários sobre o desaparecimento da peregrina Norte Americana Denise Pikka Thien que apesar das buscas ainda não havia sido localizada. Em alguns lugares ouvimos comentários de comerciantes locais de que o caminho já não era tão seguro. El camino cambió! Diziam eles. No passado os peregrinos já foram alvo de ladrões e salteadores e para fugir destes viajavam em grupo ou se agrupavam com outros viajantes no caminho . Antes de iniciarmos a nossa peregrinação nos informamos através de relatos que o caminho é considerado seguro mas se recomenda não andar com muito dinheiro no bolso nem ostentar objetos de valor, embora o risco de assalto seja considerado desprezível pelas autoridades. Sem querer assustar futuros peregrinos o negócio não é bem assim! Li que depois do desaparecimento da peregrina Norte Americana, viheram a tona vários relatos de violência e roubo em diferentes povoados do Caminho Francês. Conta o Jornal el País que nos últimos cinco anos, mais de 15 mulheres foram atacadas sem no entanto estes casos terem ultrapassado o noticiário local. Embora as autoridades afirmem que a segurança é quase total pois os caminhos são patrulhados pela Polícia Montada, agentes a paisana e Guarda Cívil, os roubos e furtos de mochilas e bicicletas praticados por assaltantes e falsos peregrinos acontecem. Em 2011 a Polícia Prendeu dois marroquinos que entravam nos albergues durante a noite e roubavam dinheiro e outros pertences dos peregrinos adormecidos. A dupla realizou mais de trinta roubos. Em 2014 nas proximidades de Leon, um morador da região foi preso quando já acumulava mais de 20 furtos. No mesmo ano outros ladões que agiam na região do Cebreiro roubavam os peregrinos depois de jogar gás de pimenta nos dormitórios dos albergues, também foram presos depois de roubarem alguns milhares de euros.

VIGÉSIMO SEXTO DIA: DE TRIACASTELA A BARBADELO - 26,5 KM

A partir desta etapa, várias pessoas que não eram vistas ao longo dos percursos anteriores, passam a caminhar junto com os poucos peregrinos que iniciaram o caminho em Saint Jean Pied Port. A razão disto é que a Arquidiocese de Santiago também concede a Compostela (documento que comprova a realização da peregrinação) a quem percore pelo menos os últimos 100 quilômetros da rota que se inicia em Sarria e não dipõe de tempo ou resistência para fazer o percurso completo.

VIGÉSIMO SÉTIMO DIA: DE BARBADELO A GONZAR - 23,7 KM

Belas paisagens continuam marcando o caminho alternando trechos de bosques fechados e campos abertos que são percorridos sem grandes dificuldades. A Região da Galícia se diferencia do restante das outras regiões do norte da Espanha que possuem grandes extensões agrícolas, por apresentar pequenos vilarejos bem provincianos e pouco povoados, cujas habitantes sobrevivem da agricultura familiar e também da renda proporcionada pelo movimento dos peregrinos que dão vida a estes povoados que quase desapareceram nos anos noventa pela falta de alguma atividade econômica que lhes desse sustentação. Antes de chegar a Gonzar, passamos por Portomarin sobre uma imensa ponte de ferro construída há mais de cinquenta anos de onde se têm uma bela visão do Rio Miño.

VIGÉSSIMO OITAVO DIA: DE GONZAR A ARZÚA - 45,10 KM

Quando terminamos de cumprir esta etapa estavamos a menos de cinquenta quilômetros de Santiago de Compostela. Neste percurso existem várias restaurantes que servem polvo e muitos peregrinos são atraídos pelos deliciosos pratos servidos em vários restaurantes do caminho. Os restaurantes mais famosos ficam na cidade de Mélide, conhecida como terra do polvo galego.Este dia foi a nossa preparação para a última jornada que aconteceria no dia seguinte. Saímos cedo e caminhamos sem nenhuma dificuldade com apenas duas subidas e uma descida mais fortes antes de chegarmos a Arzúa. O cenário ia se reverzando entre povoados com paisagens bucólicas formadas por antigas construçoes medievais, riachos e densos bosques de carvalho, pinheiros e eucalíptos. A concha de Vieira, vista em vários lugares durante o caminho mas, principalmente pendurada nas mochilas dos peregrinos ou para sinalizar a rota é também um dos símbolos dos peregrinos. Conta-se que os devotos ao regressarem da peregrinação até Compostela, deveriam mostrar aos seus amigos e familiares alguma prova ques testemunhasse terem cumprido a peregrinação. Como o mar era pouco conhecido pelos eropeus da parte central e como eles sabiam que o Santo Sepulcro de Santiago estava próximo da costa, a concha serviria como testemunho e recordação para aqueles que após orarem junto a tumba do Apostolo, seguiam até a cidade de Finisterra que fica no litoral. Só assim o caminho estaria completo! Na concha está desenhada a "Cruz de Santiago" símbolo da Ordem Militar Religiosa de Santiago que no ano de 1160 foi criada para defender os peregrinos que iam ao Sepulcro do Apostolo Santiago em Compostela.

VIGÉSSIMO NONO DIA: DE ARZÚA A SANTIAGO DE COMPOSTELA - 29,0 KM

O nosso último dia de caminhada foi um dos mais difíceis, por conta do relevo irregular que castigou bastante os nossos joelhos. Pensamos em parar e pernoitar em Monte do Gozo que fica a quatro quilômetros de Santiago e prosseguir no dia seguinte. Encontramos com um portugûes com quem já haviamos conversado em outras oportunidades que nos convenceu a seguir até Santiago pois no dia seguinte havia previsão de chuva e isto poderia atrasar a nossa chegada para acompanhar a tradicional missa dos peregrinos, com a cerimônia do Botafumeiro um dos mais conhecidos símbolos da Catedral de Santiago. O Botafumeiro é na verdade um incensário gigante que pesa mais de oitenta quilos e oscila na nave da catedral em um movimento cadenciado de pêndulo, controlado por oito homens conhecidos como "tiraboleiros" que do latim significa "lançador de fumo". A origem desta tradição veio da necessidade de diminuir os efeitos do odor desagradável das roupas dos peregrinos impregnadas pela transpiração durante a caminhada. Mas tarde, este ritual veio a tornar-se em símbolo de purificação espiritual. Conquista de uma meta e realização de um sonho! Foi este o nosso sentimento ao participar da Missa do Peregrino. A satisfação pela realização deste grande esforço nos contagiou e nos dava a sensação de dever cumprido. Assistimos a missa muito emocionados. O momento triste para todos foi o anúncio durante a missa que o corpo da peregrina Norte Américana Denise Pikka Thien havia sido encontrado e que o assassino já se encontrava preso. Depois da missa recebemos da Arquidiosese da Catedral de Santiago a nossa Compostela que comprova a nossa peregrinação. Andamos pela cidade, encontramos algumas pessoas que conhecemos no caminho e já não víamos há vários dias, tiramos fotos, comemoramos e no dia 14 de setembro de 2015 retornamos para Roma. " A dor faz você mais forte. O medo faz você mais corajoso e a paciencia faz você mais sábio"
Buen Camino!

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Alda Maria Ramos | Responder 21.06.2016 12.17

Adorei conhecer vocês caminhando no parque Olhos d'Água em Brasília... Amei o site de vocês.

Mario e Carmen 21.06.2016 22.02

Olá Alda.Que bom que você gostou! Ficamos felizes em poder compartilhar as nossas experiências com outros peregrinos. Buen Camino!

Felipe Nähring | Responder 12.06.2016 22.26

Olá galeraaaaa!!! Muito bacana o site de vcs!!! Boas viagens e sucessos!!! #AíDentroMacho

Felipe Nähring
Blumenau-SC

MARIO E CARMEN 13.06.2016 11.56

Beleza Felipe!!! Ainda estamos em Brasilia. Seguiremos na quarta 15/06 para o Jalapão. Daremos noticias via Instagram(mariomc_expedition) e face (Mario Lima).

Lilo del grupo Auto caravanes | Responder 07.04.2016 19.44

Oi, nao falo bem Portugues!
Conocen a Lucas y Alice de mega macaqueiros! Los conoci en Costa Rica pero no tengo facebook. P f pasad mi Email a ellos! Obrigada

Mario e Carmen 13.04.2016 09.50

Ola Lilo, passei sua solicitação para os Mega Macaqueiros.
Grande abraço!

Fernando e Laura | Responder 02.04.2016 09.13

Parabéns, é sempre muito bom ver um casal no Camino...sentimos saudades e dessa forma vamos curtindo novamente...Os Diários relatam as verdades do Camino...

Mario e Carmen 04.04.2016 10.34

Fernando e Laura, também sentimos saudades! E quando isto acontece, voltamos ao caminho através das fotos, vídeos e relendo os nossos diários. Grande abraço.

Idelfonso F. Silva | Responder 01.04.2016 14.10

Há muito tempo tenho a vontade de realizar o Caminho e o seu relato define que o que falta é a coragem e a determinação de fazê-lo e, daí, dar o passo inicial.

MARIO E CARMEN 04.04.2016 10.49

Idelfonso, o primeiro passo nunca é fácil! Gosto muito de me inspirar na frase do Amyr Klink "Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir" Abraço

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Comentários recentes

21.06 | 22:02

Olá Alda.Que bom que você gostou! Ficamos felizes em poder compartilhar as nossas experiências com outros peregrinos. Buen Camino!

...
21.06 | 12:17

Adorei conhecer vocês caminhando no parque Olhos d'Água em Brasília... Amei o site de vocês.

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13.06 | 11:56

Beleza Felipe!!! Ainda estamos em Brasilia. Seguiremos na quarta 15/06 para o Jalapão. Daremos noticias via Instagram(mariomc_expedition) e face (Mario Lima).

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12.06 | 22:26

Olá galeraaaaa!!! Muito bacana o site de vcs!!! Boas viagens e sucessos!!! #AíDentroMacho

Felipe Nähring
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