EXPEDIÇÃO MONTE RORAIMA 2017 PARTE III

DIA 16/10/17 - O GRANDE DIA!

Finalmente chegou o grande dia! Segunda feira, 16 de outubro de 2017, tivemos o primeiro encontro com o time da Expedição ao Monte Roraima Solidário, Máximo Kausch, Karina Oliani e também com os magos da fotografia, Andrei Polesi e Marcelo Rabelo(marido da Karina), responsáveis pelo registro das imagens da nossa aventura. Na mesma ocasião, conhecemos os outros trekkers que como nós também  estavam ansiosos pelo início da expedição. De cara deu pra notar  que éramos os decanos do grupo! Eu com 63 anos do lado masculino e a Carmen com 60 representando o grupo feminino. Depois do café, seguimos para o auditório do hotel onde foi proferido o primeiro briefing com a participação de todos. O líder da expedição Máximo Kausch, falou muito sobre os detalhes da expedição, mas muito pouco a seu respeito. A Karina muito solicita e educada, também manteve a mesma postura. Mas, ficar lado a lado dessas duas figuras e não falar um pouco sobre a biografia de ambos é um grande pecado, mesmo sabendo que os dois são referência mundial em Esportes Outdoor e que muitos já acompanham as suas aventuras pelo mundo através das redes sociais e pela TV. Máximo Kausch é considerado o guia de montanha mais experiente do Brasil. Atua há mais de quinze anos em montanhas de altitude, algumas nos locais mais remotos do planeta, espalhadas por mais de 25 países que ele já visitou. Treinado em primeiros socorros em áreas remotas (WFR), também possui vasto conhecimento em medicina, resgates e logística de montanha. Atualmente é o recordista mundial de montanhas de altitude com mais de 6000 metros (83 cumes) na Cordilheira dos Andes. Karina Oliani, a mesma que recentemente desafiou o Vulcão Erta Ale na Etiópia e se tornou a primeira pessoa na história a atravessar de um lado a outro o maior lago de lava do planeta, em uma espécie de tirolesa montada na cratera do vulcão, também estava com a gente. Tudo foi registrado em matéria exibida recentemente no Fantástico! Karina é medica especializada em Medicina e Resgate em Áreas Remotas(WFR), ostenta em seu currículo o status de atleta em várias modalidades, é apresentadora de TV, piloto privado de helicóptero, palestrante e outras coisas mais. Já escalou quatro das sete maiores montanhas de cada continente, sendo a primeira mulher sulamericana a escalar o Everest por suas duas faces(Norte e Sul). Com tantas atividades, Karina Oliani, através do Instituto Dharma, ainda encontra tempo para realizar ações humanitárias no Brasil e no mundo, dando a todos um belo exemplo de solidariedade e amor ao próximo. Ela é realmente demais! Logo depois do briefing, seguimos de ônibus com destino a Santa Elena de Uairén-Venezuela, que fica a 220 km de Boa Vista. O nosso plano inicial era viajar  no nosso carro até Santa Elena, e depois do trekking, conhecer mais um pouco da Venezuela, indo até Caracas e depois os países vizinhos, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, retornando ao Brasil através do Oiapoque. Mas, por conta da instabilidade política  na Venezuela, abortamos esta parte da expedição e deixamos o nosso carro na Concessionária Mitsubishi em Boa Vista. Seguimos todos no buzão e a nossa primeira parada foi no conhecido  Restaurante Quarto de Bode, considerado o ponto mais tradicional da venda de paçoca em Roraima. O restaurante fica no km 100 da BR-174, entre Boa Vista e Pacaraima, fronteira com a Venezuela e já funciona no mesmo local há mais de trinta anos, desde quando a BR-174 era apenas um caminho de piçarra que levava aventureiros brasileiros em lombo de burro aos garimpos da Venezuela. Almoçamos uma comida caseira acompanhada é claro, de paçoca com banana, a mais tradicional comida de Roraima que teve a sua origem a partir dos povos indígenas e tropeiros, sendo apreciada até hoje pois é  um alimento de fácil manuseio que não precisa de nenhum tipo de conservação. Seguimos viagem e chegamos em Pacaraima, ultima cidade do lado brasileiro que com seus 920 m de altitude e temperatura média anual de 15 Graus foi batizada pelos roraimenses de "Polo Norte de Roraima". A cidade já registrou em 23/04/78, segundo o INMET a temperatura de 2 graus Centígrados, considerado um frio polar para os padrões da região. Fizemos uma rápida parada no monumento de fronteira para fotos e seguimos para a Polícia Federal onde carimbamos os passaportes de saída do Brasil. 

DIA 16/10/2017

Depois dessa formalidade do lado brasileiro, fizemos o mesmo procedimento do lado venezuelano. O serviço de imigração  chamado de SENIAT, funciona em um pequeno trailer que atende quatro pessoas por vez. O agente fez algumas perguntas, registrou a nossa foto, carimbou os passaportes e liberou a nossa entrada no país. Alguns vendedores ambulantes circulam pela área e podem lhe abordar para fazer câmbio paralelo o que não é aconselhável pois, além do risco de notas falsas, se você for flagrado por alguma autoridade de uma das polícias mais corruptas do mundo poderá até ser preso. Já em território venezuelano, seguimos para Santa Elena de Uairén que fica  a 15 quilômetros da fronteira e nos acomodamos no Hotel Anaconda. A cidade que já foi destino de brasileiros em busca de autopeças, eletrônicos e outros tipos de importado, hoje sofre uma grave crise de desabastecimento e hiperinflação o que fez o fluxo de turistas praticamente desaparecer pois os preços deixaram de ser atrativos para os brasileiros. Falta combustível e as filas nos postos são quilométricas. Os poucos turistas que ainda circulam pelas ruas, vão em busca dos atrativos naturais da região. Caminhamos um pouco pela cidade, compramos alguns souvernirs produzidos pelos indígenas e voltamos ao hotel para jantar, preparar as mochilas e descansar.

DIA 17/10/2017

Dia 17/10/17 a nossa jornada começou cedo. Após o café da manhã chegaram ao hotel os carros 4x4 que nos levariam a comunidade indígena Paraitepuiy de Roraima, o ponto mais próximo ao Tepui, onde é possível chegar de carro, cuja distância é de 100km a partir da Santa Elena. Seguimos inicialmente em uma estrada asfaltada por cerca de uma hora até a Vila de San Francisco de Yuruani, antes passando pela administração do Parque Nacional Canaima, para obter a permissão de acesso e receber as orientações gerais sobre a nossa permanência nas áreas protegidas. Depois, seguimos por mais 30 km em trilhas offroad em meio a Gran Sabana, até finalmente chegarmos ao início do trekking. No caminho paramos  para fotografar e contemplar a paisagem da savana sempre cercada por tepuis, que pela sua perfeição se assemelham a belas pinturas. Na comunidade de Paraitepui, fizemos o nosso registro no Posto de Controle, pesagem da nossa bagagem  e contratação do porteador, como são chamados os carregadores de origem indígena que usam um cesto rústico chamado Wachare, feito de fibra de madeira para transportar pertences, alimentos, barracas e tralhas de cozinha que vão ser usados durante a expedição. Após  um lanche preparado pelo Staf da expedição, iniciamos o primeiro dia de trekking até o Acampamento do Rio Tek, com distância de 12 km e tempo estimado de 5 horas. Seguimos ainda com o sol forte por uma trilha no meio da savana, em alguns momentos planas, depois com subidas e descidas, sempre avistando ao longe o imponente Monte Roraima e seu vizinho Kukenan, chamado pelos índios de Matawi(mata gente). 

DIA 17/10/2017

A caminhada se iniciou com todos juntos numa fila indiana, mas aos poucos foi se dispersando pois alguns andavam num ritmo rápido, outros mais lentos, alguns paravam para tirar fotos, outros para descansar. Enfim, cada um fazia o seu ritmo, mas sempre acompanhados de perto pelos nossos guias e líderes da expedição. Chegamos no acampamento por volta de 17:00 e já encontramos todas as barracas e banheiros do acampamento montadas. O restante do pessoal chegou por volta de 17:30. O nosso porteador já havia chegado bem antes, juntamente com os carpeiros, que são os montadores das barracas e com o pessoal da cozinha. Apesar do peso que transportam, todos caminham muito rápido. Com o final de tarde chegaram  os temidos mosquitos Puri Puri, que em Roraima são conhecidos como Pium. Esse pequeno inseto parecido com uma pulga voadora, é o terror do parque! Ao contrário do pernilongo que pica e suga o sangue, ele cavuca a pele e bebe o sangue do micro buraco que abriu. Esse pequeno orifício, pode depois sofrer um processo inflamatório e se transformar em uma ferida que vai lhe incomodar bastante durante a expedição. A única maneira de enfrenta-los, é usando um bom repelente com segunda pele, calça e camisa de manga longa. Se não for assim, o melhor é ficar dentro da barraca pois quando o sol desaparece eles também vão embora. Fomos tomar banho no Rio Tek e captar água de beber. Mais tarde todos se encontraram  para um bate papo e cada um se apresentou para o restante do grupo, contando as suas experiências anteriores. O jantar foi servido em uma pequena construção de pau-a-pique com chão de barro, onde todos se acomodaram em duas mesas grandes com bancos de madeira e luz de lampião. No jantar foi servido suco, frango assado com arroz e pão. Achamos a comida saborosa e bem preparada, considerando as limitações do local e a dificuldade de logística. Depois do jantar,  o briefing do Máximo Kausch encerrou o primeiro dia de jornada. O céu estava estrelado e a noite muito agradável mas, depois de um dia exaustivo, todos cansados se recolheram as suas barracas e o acampamento entrou em silêncio.   De repente gritos de socorro foram ouvidos quebrando o silêncio e acordamos assustados. Começamos a pensar: Será que alguém estava passando mal? Briga de casal? Alguém teria sido atacado? Ouvimos sussurros próximo da nossa barraca, com alguém tentando acalmar outra pessoa mas não sabíamos quem era nem o que havia acontecido. Para não interferir na privacidade de ninguém, ficamos quietos observando o movimento em volta do acampamento mas, como ninguém saiu da sua barraca e o silêncio voltou a reinar, fomos dormir. Apesar daquela noite ser a nossa primeira vez em acampamento selvagem dormindo em barraca, gostamos da experiência e até que nos saímos  bem. Durante o café ficamos sabendo que o motivo dos gritos de socorro, foi a esposa de um amigo havia tido um pesadelo. Aí o mistério ficou esclarecido e todos que estavam preocupados pois não sabiam o que realmente tinha acontecido, caíram na risada! 

DIA 18/10/2017

Dia 18/10 após o café da manhã, onde foi servido pão, ovos, café com leite, suco e frutas, nos preparamos para zarpar e deixamos o acampamento por volta de 8 da manhã. A meta do dia era percorrer uma distância de 8 km, em um tempo de 4 a 5 horas, num nível de esforço considerado intenso, devido a 70% do caminho ser de subida, até chegarmos ao Acampamento Base , com 1870 metros de altitude. Primeiro passamos pelas corredeiras do Rio Tek com seu leito raso mas, muito empedrado e liso. Nesse caso, a recomendação é atravessar de meia que escorrega menos do que se você estiver calçado ou descalço. Um pequeno vacilo, fez com que o nosso Líder  Máximo se desequilibrasse e fizesse um mergulho forçado na água  gelada do rio. Paramos na margem oposta para calçar as meias reserva que havíamos separado para isso e continuamos a caminhada. Passamos pela Ermita de Santa Maria de Tokwono, uma igreja de pedra do tempo em que os Missionários Jesuítas iniciaram a catequese dos índios Pemón e Macuxis que povoavam a região. Descemos uma colina que nos levou a margem do rio Kukenán, este mais largo e caudaloso que o Rio Tek. Iniciamos os procedimentos de travessia, mas desta vez os guias e carregadores, foram posicionados para nos auxiliar no cruze, haja vista o risco de queda ser maior. Com a "manha" adquirida no Rio Tek, todos atravessaram tranquilamente. Passamos pelo Refúgio Kukenán e seguimos debaixo de um sol forte  por uma trilha pedregosa e irregular, que nos aproximava cada vez mais do Paredão do Monte Roraima. Começamos a encontrar alguns grupos que vinham na direção contrária que mesmo aparentando cansaço, não perdiam o entusiasmo e quando nos viam parados, eventualmente também paravam para conversar e nos contar sobre a sua experiência e privilegio de terem conhecido lugares tão incríveis, onde poucas pessoas se aventuram a chegar. Quem mais me chamou a atenção foi um rapaz amputado de um braço que estava radiante por ter realizado o grande sonho de conquistar o topo de uma das montanhas mais antigas e misteriosas do planeta. Mas, pra quem é aventureiro e tem determinação, sabe que sonho e realidade  sempre caminham juntos! Por volta de 14 horas chegamos ao Acampamento Base. 

DIA 18/10/2017

Como fazia sol, escolhemos a nossa barraca que ficava na sombra de uma pequena árvore, junto a um bloco de pedra que usamos para secar as nossas roupas ainda molhadas do dia anterior. Fomos tomar banho em uma pequena cachoeira muito gelada próxima do acampamento e captar água para beber. Voltamos para almoçar e depois ficamos circulando pela área do acampamento, contemplando o paredão, fazendo fotos e ao mesmo tempo imaginando a dificuldade que teríamos para subir aquelas escarpas por onde vimos algumas pessoas, parecendo pequenas formigas ainda descendo. Havia mais duas expedições acampadas na mesma área e um número razoável de barracas espalhadas. A medida que o sol desaparecia, a temperatura começou a cair e para enfrentarmos o frio, foi servido um chocolate quente. O por do sol foi um pouco prejudicado pelas seguidas pancadas de chuva mas mesmo assim tivemos um belo entardecer e depois um início de noite com céu estrelado. O tempo aqui muda constantemente! Dispensamos o jantar, participamos do briefing e fomos nos preparar para dormir. Logo que nos acomodamos, uma forte tempestade desabou no acampamento e a nossa barraca foi literalmente inundada. Rapidamente acondicionamos os nossos pertences nos sacos estanques, enquanto o Máximo, pelo lado de fora, fazia sulcos no terreno para desviar o curso d'água que invadia a nossa barraca. Felizmente a chuva diminuiu de intensidade, conseguimos evitar que os nossos pertences, principalmente os sacos de dormir fossem molhados mas, por conta desse perrengue, ficamos muito apreensivos e não tivemos uma boa noite de sono. 

DIA 19/10/2017

Dia 19/10/17. No início do terceiro dia da expedição o grande desafio era fazer o ataque ao cume, subindo a encosta do paredão até o nosso primeiro acampamento no topo da montanha. Para isso tínhamos que vencer um desnível de aproximadamente 1000 metros  em pouco mais  de 4 km. Tomamos café e saímos  do acampamento por volta de 7:30 da manhã. Logo de início  fizemos uma difícil caminhada, enfrentando uma subida muito íngreme e escorregadia, com terra sulcada e molhada pela água da chuva, entre raízes e muitas pedras soltas. Passada essa primeira dificuldade, o cenário mudou completamente e passamos a desfrutar de um dos momentos mais bonitos do trekking, com vários pontos para contemplação e fotos, tudo em meio a uma densa vegetação ornamentada por flores como orquídeas de várias espécies, samambaias, pequenos pássaros e alguns riachos. Depois de duas horas de caminhada, ficamos cara a cara com o gigante de pedra, que na crença  dos índios Pemón é a casa do deus Makunaima. Neste ponto, o paredão é banhado por uma cachoeira que despenca por centenas de metros, formando uma bela cortina que dá origem ao famoso e temido "Passo de Lágrimas". Esse ponto é considerado pelos guias o momento mais tenso e perigoso do trekking, pois o caminho molhado fica muito escorregadio, o que pode provocar uma queda despenhadeiro abaixo que pode ser fatal. As pedras que despencam do paredão, também podem atingir perigosamente uma ou várias pessoas ao mesmo tempo. Antes de encarar esse desafio, fizemos uma parada para nos recuperar fisicamente, nos preparáramos  psicologicamente e rezamos para pedir proteção e espantar o medo. O Máximo foi nos guiando e a travessia foi feita com calma e segurança. Chegamos no mirante que fica a 2.800 metros de altitude e paramos para apreciar a imensidão da gran sabana agora vista do alto. 

DIA 19/10/2017

Depois de recuperar o fôlego e superar o desafio que já pareceu intransponível até para Sir Edvard im Trurn, o primeiro explorador a chegar ao cume do tepui em 1884 por essa mesma trilha, seguimos  para o nosso acampamento. Caminhamos no platô acompanhando o nosso guia por um caminho que se forma na parte mais branca das pedras, que vai se desgastando devido o sucessivo vaivém das mais de cinco mil pessoas que visitam o monte todos os anos. O constante sobe e desce em zigue-zague, que chega a provocar um desgaste físico extenuante, ao mesmo tempo instiga a nossa imaginação que passa a ver nesse grande labirinto empedrado, vários tipos de seres que longe de ser uma miragem, na nossa mente ganham a forma de seres reais, acima  de qualquer suspeita. O pensamento viaja e de repente você pode dar de cara com um dinossauro ou com uma tartaruga gigante! Foi esse cenário de aura, fábula e mistérios que inspirou Conan Doyle a escrever o livro "O Mundo Perdido" que conta a história ocorrida no início do Século XX, onde um grupo de exploradores partiu em uma expedição com o objetivo de desvendar a existência de um mundo perdido e completamente isolado do mundo moderno. Na expedição vários acidentes aconteceram e o grupo vê-se encurralado em um mundo diferente é perigoso. 

DIA 19/10/2017

Por volta de 15:00 horas chegamos ao acampamento do Hotel Guacharo, ainda com tempo para visitar a Pedra Maverick que com 2.880 MSNM é o ponto mais alto do Roraima, de onde se tem uma bela vista panorâmica do Parque Nacional Canaima. O seu nome é dado por conta da semelhança com o carro Maverick que fez muito sucesso na década de 60/70. Não é de todos os locais que você consegue perceber a visão do carro. Eu pelo menos demorei a perceber mas, quando encontrei o melhor ângulo achei perfeito. A Carmen e boa parte do grupo, preferiu ficar descansando e fazendo fotos próximo  ao hotel. Os "hoteis" como são chamados os acampamentos existentes no topo do tepuy, são na verdade grutas ou paredões onde as camadas de pedras que se sobressaem, funcionam como uma marquise que protege a área onde ficam as barracas e a cozinha da ação do vento e da chuva. Por conta da noite mal dormida e da caminhada exaustiva dos dias anteriores, logo após o jantar e o briefing fomos dormir. O cansaço acumulado nos proporcionou o que seria a melhor noite de sono do trekking. 

DIA 20/10/17

Dia 20/10/17, acordamos dispostos e logo cedo o nosso guia e cozinheiro Ricardo, já gritava alto: mangiare, mangiare, mangiare! chamando todos para o café que foi servido acompanhado de frutas, aveia e da tradicional arepa, uma comida de origem indígena que lembra um pouco o nosso bolo de fubá. A programação do dia nos levou ao ponto onde se encontram Brasil, Venezuela e Guiana, depois ao Vale dos Cristais e por último ao acampamento do Hotel Coati, num percurso aproximado de 15km. A nossa primeira parada aconteceu no marco que sinaliza a tríplice fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela, no mesmo lugar onde em outubro 1927, portanto há noventa anos atrás, o Marechal Rondôn, primeiro brasileiro a chegar lá em cima, fincou a pedra que demarca o limite dos três paises. O marco em forma de pirâmide que tem três lados, leva em cada face o nome do país que está a sua frente, só que o lado da Guiana sempre está sem identificação pois, segundo relatos, a Venezuela reclama a posse desse território desde 1966 e o chama de zona de litígio. Assim, os militares do exército venezuelano que vez ou outra fazem patrulha na região da tríplices fronteira, retiram do marco a identificação da Guiana. No Vale dos Cristais que os Esotéricos consideram um lugar mágico, as pedras de quartzo brotam por todos os lados. Eles acreditam que ali existe um mundo subterrâneo e os cristais possuem uma força mágica! Na explicação dos estudiosos, o Monte Roraima é um imenso bloco de arenito que com o passar dos anos e mudanças de temperatura, parte desse arenito se cristalizou e em alguns locais do monte, por causa da erosão ele aflora naturalmente, transformando o vale num lugar mágico e cheio de mistério até para os mais céticos. Mas num ponto tanto Geólogos quanto Esotéricos concordam. Ainda há muito o que se descobrir nesses relevos de mais de dois bilhões de anos, mais antigos que os Andes ou o Himalaia, que existem desde quando a América do Sul e a África ainda formavam um só continente.

DIA 20/10/17

No final da tarde chegamos no Hotel Coati que fica do lado brasileiro e junto também chegou uma chuva forte que fez a temperatura desabar. O vento soprava  forte pela entrada principal do refúgio em forma de caverna, encravada no meio de duas pedras gigantes. Os guias consideram o Coati o melhor de todos os hotéis. Existe um salão com terra fofa onde ficam a maioria das barracas e um espaço menor reservado à cozinha. Na parte interna tem  um grande jardim de inverno com uma abertura no teto, semelhante a uma clara boia, que projeta a luz do sol em um lago corrente com muitas plantas. O lugar é realmente muito bonito e faz jus a classificação cinco estrelas! Havendo tempo bom, é possível caminhar por quinhentos metros até o paredão do lado brasileiro para avistar a Reserva Indígena Raposa Serra do Sol e o Roraiminha, um tepuy de tamanho menor. A chuva persistente acompanhada de rajadas de vento frio, fez com que nos recolhêssemos cedo, dispensando inclusive  o jantar. O vento da madrugada soprou ainda mais forte e a alta humidade provocou uma sensação térmica congelante, típica de temperatura negativa. Mas, como estávamos bem agasalhados e a nossa barraca estava protegida do vento, suportamos com tranquilidade a noite que consideramos a mais gelada até agora. Algo  por volta de zero grau. O frio da madrugada no topo do Roraima não é brinquedo! 

DIA 21/10/2017

Sábado 21/10/17. Acordamos  dispostos a encarar mais um dia intenso. Como retornaríamos ao mesmo hotel no final da tarde, preparamos  as mochilas com pouca bagagem o que tornaria a caminhada estimada em 12 km, menos cansativa. Após o café da manhã, servido no salão principal, saímos para apreciar a paisagem. O tempo lá fora estava muito frio e a mistura das brumas com as nuvens, embaçava por completo a luz do sol deixando a visibilidade quase nula. Neste cenário, o helicóptero da nossa retaguarda que trazia suprimentos para o acampamento tentava pousar numa área de chão incerto e bastante pedregoso. Depois de sobrevoar o acampamento por várias vezes ele finalmente pousou  e todos saíram na sua direção, seguindo o barulho das hélices e do motor já que não conseguíamos enxerga-lo. Com a aeronave pousada, os porteadores se aproximaram e rapidamente iniciaram o descarregamento. Uma das nossas amigas, que não estava bem, se despediu do grupo e embarcou de volta para Santa Elena. Tivemos ali a primeira e única desistência da expedição. O helicóptero permaneceu em terra por alguns minutos com o piloto esperando uma "janela" para decolar. Tão logo a condição visual ficou favorável ele rapidamente levantou voo e sumiu no céu rumo à Santa Elena de Uairén. Os guias e participantes se organizaram e o trekking seguiu em direção ao Lago Gladys, que fica do lado da Guiana e foi assim batizado em homenagem a um lago citado no livro o Mundo Perdidodo, pelo protagonista da história, o jornalista Edward Malone, que quis prestar um tributo a sua namorada que se chamava Gladys. 

DIA 21/10/2017

Tivemos a sorte de ver este lago de rara beleza e misterioso para o povo indígena com tempo aberto,  pois na maior parte do dia, segundo os guias ele fica encoberto pelas nuvens. Seguimos para a Greta da Proa que é assim chamada porque lembra muito a proa de um navio. Não são todas agências que incluem este trajeto nas suas expedições porque o local ainda não é facilmente acessível, as trilhas não são demarcadas e isso as tornam perigosas. Até bem pouco tempo este percurso só era feito com a ajuda de cordas. Em compensação, se o tempo estiver limpo a vista lá de cima é magnífica. Infelizmente não tivemos sorte e o máximo que conseguimos foi nos aproximar do abismo sem no entanto avistar este lado do tepuy que segundo relatos dos guias, poucas pessoas tem a chance de ver devido às repentinas mudanças do clima. De volta ao acampamento, fizemos um pit stop nas águas avermelhadas  do Rio Cotinga, onde os guias nos surpreenderam com um lanche digno de hotel cinco estrelas. Suco, sanduíche e melancia gelada na água do rio foi o cardápio. Este pequeno rio de águas avermelhadas, depois de se precipitar montanha abaixo, junta-se a outros afluentes e ganha volume até desaguar no Rio Branco e ajudar a formar a grande bacia do Rio Amazonas. Chegamos ao hotel no final do dia, tomamos banho nos córregos de água gelada no entorno do acampamento e fomos descansar em um pequeno terraço com vista panorâmica para as esculturas naturais formadas pelas rochas e paredões. Ficamos sabendo que pelo menos três dos nossos companheiros de trekking foram de súbito acometidos por febre e desarranjo gástrico, provavelmente por intoxicação alimentar ou água. O Máximo junto com a Karina cuidaram da medição e todos foram mantidos em repouso. Nesta noite o Máximo não realizou o costumeiro briefing pois estava dando atenção aos companheiros infernos. Como tínhamos feito um bom lanche no  pit stop do Rio Cotinga, tomamos um chocolate quente e fomos dormir. Na madrugada o vento acompanhado de chuva açoitou violentamente a nossa barraca que parecia que ia levantar voo. Sentimos que a temperatura estava ainda mais baixa que a da noite anterior. Para não sermos surpreendidos na madrugada, reforçamos  os nossos agasalhos. O nosso temor era pela segurança da nossa  barraca que diante da ventania descomunal, chegava a ficar com as paredes envergadas. Finalmente Makunaima  se acalmou e a bonança pouco a pouco foi tomando conta do acampamento. Contam os nativos que quando contrariado, o bravo Makunaima, cujo significado é Grande Mau (Maku=mau e ima=grande) quando contrariado, envia ferozmente do alto de sua moradia, raios, trovões, tempestades e grandes males para aniquilar quem os desobedeceu. Essa crença é levada muito a sério pelos nativos que repreendem firmemente qualquer pessoa que ouse contrariar as leis da montanha com atitudes, gestos desrespeitosos ou de alguma forma tente subtrair qualquer coisa da montanha, como os cristais de quartzo que são encontrados em abundância.

DIA 22/10/2017

Dia 22/10/17. Tomamos café e o nosso Guru fez uma oração para Cafuzo, pedindo para que os companheiros que estavam "vazando pelo pito" e com com outras mazelas ficassem curados. Depois de muitas risadas levantamos acampamento. Mesmo com a desistência do dia anterior e com o mal estar dos companheiros que caminhavam visivelmente abatidos mas nem por isso sem animo, a moral do grupo não foi prejudicada e a expedição seguiu firme para cumprir os 11km do dia. Caminhamos sobre as pedras no meio de brumas e nuvens que se alternavam com o tímido sol da manhã. Visto de longe, o topo do tepuy se apresenta plano, mas lá em cima é bastante irregular. Em alguns pontos, no lugar das pedras existe um chão  lamacento que se você pisar, afunda até o joelho. O desgastante sobe e desce só é compensado pelo visual exótico e surreal das rochas negras de vários formatos, lagos, corredeiras, cavernas, paredões e alguns campos verdes formados por espécies  de musgos, bromélias, plantas carnívoras e pequenas árvores consideradas endêmicas. A habitante mais famosa do monte, que deixa todos curiosos é a pequena rã preta que possui o impronunciável nome científico de OREOPHRYNELLA QUELCHII. Do tamanho de uma unha ela facilmente se camufla no meio das pedras para fugir dos seus predadores. A espécie é endêmica e bastante primitiva. Ela não consegue saltar mas se move rapidamente entre as pedras. Quando alguém a pega na mão para fotografar ela se defende fingindo-se de morta. A atração do dia foi o El fosso, que é um lago situado no fundo de um imenso buraco largo e profundo com algumas quedas d'água ao seu redor, onde é possível tomar banho chegando ao lago por caminhos subterrâneos irrigados por águas congelantes. O caminho é cercado por belas formações rochosas esculpidas pela água e pelo vento. Não fizemos essa parte mas depois vendo fotos que lembram as Capelas de Mármore que conhecemos na Patagônia Chilena, sentimos que deixamos de conhecer um importante atrativo da expedição. Achamos também que pelo fato de o acesso ser um pouco complicado, os guias não se animaram em nos levar até lá. 

DIA 22/10/2017

Seguimos para o Acampamento do Hotel Principal que seria a nossa quarta e última noite no topo da montanha, já iniciando o caminho de volta. O Hotel Principal  é considerado o maior dos dez  existentes no topo da montanha e chega a comportar cerca de sessenta barracas. Como não haviam outras expedições, as nossas barracas ficaram bem distribuídas e conseguimos ficar num bom local com espaço de sobra para montar um varal e espalhar a roupa molhada. Vizinho a nossa barraca as pedras em forma de banco serviram mais tarde para reunir o grupo num animado bate papo. Depois de organizarmos nossas tralhas, seguimos  para as Jacuzzis,  que sem dúvida são uma das atrações mais bonitas do Roraima. Lá encontramos uma sequência de pequenas piscinas com cristais de quartzo no fundo, transbordando de água gelada em tom amarelado que se renova constantemente através de uma corredeira que brota de um pequeno salto. Uma obra fantástica da natureza! Com esse visual convidativo e com o sol para nos aquecer, permanecemos no banho por quase uma hora indiferentes ao frio da tarde. Estávamos a menos de quarenta minutos da La Ventana, um dos pontos mais incríveis e visitados do topo mas os guias falaram que não valeria a pena chegar até lá. O tempo começou a mudar e  já era possível observar o nevoeiro começando a cobrir o local, transformando rapidamente aquele imenso postal  que antes vimos colorido em um retrato branco e preto, desenhado pelas nuvens brancas que contrastavam com as pedras escuras. Dizem que a paisagem que se ver de lá é incrível e ao mesmo tempo assustadora. No local existe uma formação rochosa no formato de janela que dá vista para um grande abismo. Para chegar lá é preciso transpor algumas fendas muito profundas, saltando paredões e isso nem todos têm coragem de fazer. Só de pensar dá vertigem! Sem outra opção seguimos para o hotel. No acampamento o tempo estava limpo e quando anoiteceu ficou estrelado, muito bonito para a contemplação. Até  o claro da lua contribuiu para compor o visual. Jantamos e fomos dormir cedo nos preparando para a descida que aconteceria nos dois dias seguintes. 

DIA 23/10/2017

Dia 23/10/17. A madrugada foi bastante chuvosa e isso gerou uma certa apreensão entre os guias pois com a chuva forte, a cachoeira do vale de lágrimas acumula muita água e se torna ainda mais perigosa. Após o café,  o Máximo fez um briefing para explicar os detalhes da descida de quase 21 km que seria feita em sete horas de caminhada até o acampamento do Rio Tek. O guia Ricardo que liderava o Staf de apoio, fez também um briefing para reforçar sobre as precauções que deveríamos tomar, instruiu os outros guias e solicitou que um deles "puxasse" uma oração para que os deuses nos protegessem nessa difícil caminhada de volta. A oração foi feita na língua indígena e todos ouviram com respeito e em silêncio! Mochila nas costa, seguimos em ritmo de despedida para o desafio do dia. Rapidamente o grupo que começou compacto, foi se dispersando e formando pequenos subgrupos que só  voltavam a se juntar em alguns gargalos da trilha onde só era possível a passagem de uma pessoa por vez. Depois da trilha plana, avistamos o Vale de Lágrimas e iniciamos a descida com cuidado, rente ao paredão e sobre a escarpa molhada pela água da chuva e da cachoeira. Qualquer descuido poderia causar uma queda de consequências imprevisíveis, considerando a elevada altitude do penhasco naquele ponto da encosta. Felizmente, com todos caminhando em segurança, ao seu ritmo e ao seu tempo, superamos mais esse desafio. O guia cumprimentou a todos e visivelmente emocionado, fez uma oração de agradecimento em um dialeto da sua etnia. Depois, invocando um costume indigena, pintou os nossos rostos e o dele usando uma tinta vermelha, extraída das pedras que rolam pelas escarpas. Dai em diante a tensão diminuiu e seguimos curtindo o visual da mata, andando com cuidado para poupar os joelhos e encarar outra parte crítica da descida próxima ao acampamento base. Caminhamos lentamente, com bastante cuidado e uma certa dificuldade, usando as mão em quase todo percurso para ter mais firmeza e poupar os joelhos. 

DIA 23/10/2017

Fizemos uma rápida parada no Acampamento Base onde o pessoal da vanguarda nos esperava com um lanche a base de melancia, suco e um sanduíche reforçado que serviu de almoço. Como ainda era cedo e não havia nenhuma barraca montada no acampamento, caminhamos para fazer xixi no local onde havia sido montado o nosso banheiro, quando acampamos neste mesmo local há quatro dias atrás. Ficamos  impressionados com a quantidade de lixo que encontramos no local. É obrigação de de cada expedição recolher o lixo e o excremento humano produzido durante o trekking e o negócio funciona assim: Como estamos em cima de um platô de pedras com muitos rios cuja água também é captada para beber, o xixi só  pode ser feito em alguns locais que possa ser absorvido, sempre distante dos cursos d'água para evitar contaminação. Para o número dois, as empresas que operam no Monte Roraima e estão  comprometidas com a preservação do meio ambiente, montam banheiros itinerantes que funcionam em uma barraca própria com um banquinho, no qual cada usuário pendura um saco plástico como se estivesse preparando uma lixeira e ao final do "serviço" joga um punhado de cal para desidratar os dejetos que serão posteriormente recolhidos em um saco maior pelo porteador de baño, que os levará  de volta com os outros resíduos para serem descartados de forma ecologicamente correta. Como alguns guias autônomos operam sem uma estrutura adequada, as pessoas que os contratam acabam fazendo suas necessidades fisiológicas de forma incorreta e deixam o lixo produzido em locais inapropriados, devido a falta de fiscalização e de um controle mais rigoroso. Ficamos tristes com o que vimos, mas nada podíamos fazer. Continuamos  a nossa  caminhada  e aos poucos o Gigante Verde Azulado, como o monte é chamado na língua indígena ia ficando para trás. Vez por outra ele sumia por completo no meio das nuvens para depois novamente reaparecer,  como se tivesse aos poucos se despedindo. O sol estava brando e aproveitamos para  caminhar rápido, a ponto de ficarmos por muito tempo sem ver ninguém. De vez em quando o cansaço inevitável provocava  uma topada,  como se fosse o aviso de um tombo que estava por vir. Para nós aquilo era motivo de riso e descontração e servia  para espantar o cansaço. Até que uma hora chegou a minha vez! Num trecho de pequeno declive, eu cai de um jeito muito engraçado e fui deslizando ladeira abaixo por mais uns dois metros. A Carmen preocupada, correu em meu socorro mas eu esparramado no chão não conseguia me levantar e não parava de rir da minha situação. Não sofri nenhum lesão mas  o tombo foi  hilárico. Parafraseando Bob Marley que diz "A vida é para quem topa qualquer parada. E não para quem para em qualquer topada" seguimos em frente e sempre que nos lembrávamos do acontecido caiamos na risada. Estávamos nos aproximando do cruze do Rio Kukenan e sozinhos começamos a ficar preocupados! Imaginamos que com as chuvas no topo da montanha, o rio que nasce lá em cima poderia estar mais cheio e caudaloso. Como iríamos atravessar sem ajuda? Em nome da segurança, faz parte da nossa estratégia avançar quando as condições forem favoráveis e recuar quando for preciso. Assim, como sabíamos que o Máximo vinha conduzindo um grupo na retaguarda, decidimos que íamos parar até a chegada do grupo para cruzar o rio com segurança . Por sorte, quando começamos a nos aproximar da margem avistamos um casal de nativos que também se preparavam para fazer a travessia. Pedimos ajuda e o rapaz prontamente nos atendeu. Atravessou com a Carmen e depois voltou para me ajudar. 

DIA 23/10/2017

Passando de volta  pela capelinha de pedra que fica no alto da colina,  me lembrei da história contada pelo nosso guia Ricardo, quando ali paramos no segundo dia de trekking. Falou  ele sobre uma etnia que no passado habitou aquele local, que era cercado por uma mata verde e exuberante. Acusados de praticar Rituais Xamanisticos, este povo teve que abandonar as suas terras e sucumbiu, vitima do egoísmo do homen civilizado que os subjugou, privando-os da liberdade e das práticas tradicionais do seu mundo mítico-religioso. Atravessamos o Rio Tek e nele tomamos banho, cumprimos assim a jornada do dia. A Carmen foi para o acampamento e eu ainda continuei tomando banho por um bom tempo, descansando nas corredeiras do rio, desafiando os Puri Puri e saboreando uma Cerveja Polar que me foi oferecida pelo amigo Andrei Polesi. A tarde noite foi de comemoração no acampamento. O estoque de cerveja do pequeno povoado foi rapidamente consumido, precisando que fosse enviado reforço de Paraitepui. O jantar transcorreu num clima animado de comemoração e despedida. A "tribuna" foi aberta para quem quisesse falar e O guia Ricardo foi o primeiro. Discorreu sobre alguns episódios relacionando os seus comentários ao que ele observou em relação a alguns participantes que mais lhe chamaram a atenção . Sobre eu e a Carmen, disse que admirou a nossa parceria e disposição de enfrentarmos sempre juntos, os obstáculos da trilha com resistência e determinação, em que pese sermos os vovôs do grupo. O Andrei elogiou todos participantes e principalmente a disposição do Máximo e da Karina de estarem conosco, compartilhando as suas experiências nesta fantástica expedição , que sem dúvida ficará para sempre na memória de todos. Outros companheiros fizeram os seus relatos e o encontro seguiu animado e descontraído até por volta de 22:00 horas, quando todos se recolheram para dormir. Subir ao Topo do Monte Roraima é considerado uma trilha de esforço médio-difícil que no total  pode chegar a 100km para ir, voltar e visitar os pontos de interesse no platô. No ranking dos pontos mais altos do Brasil, com 2.880 metros ele ocupa apenas o sétimo lugar. Portanto, ser um montanhista experiente não é um pré-requisito para atingir o seu topo mas, é necessário no mínimo um bom condicionamento físico para encarar a trilha e suas dificuldades, versatilidade para suportar as constantes mudanças de temperatura e muito desprendimento para se adaptar ao desconforto dos acampamentos selvagens e a alimentação com pitadas da culinária indígena. Como o acesso ao parque só pode ser feita com guias, a escolha de uma boa equipe é fundamental e aí recomendamos fortemente o time do Gente de Montanha por ser uma referência no Brasil e na América do Sul, quando o assunto é Montanhismo e Expedições Extremas. Respeitar os seus limites e seguir rigorosamente a orientação dos guias tanto na trilha quanto na preparação dos equipamentos de uso pessoal, aí incluídos peso da mochila, calçados e roupas também é fundamental. A alimentação, hidratação e o uso de um bom protetor solar são outros fatores importantíssimos. Se alimentar bem não significa manter a barriga cheia. Para evitar transtornos estomacais, na medida do possível, evite alimentos perecíveis, gordurosos e dê preferência a frutas, barras de cereais, castanhas, carboidratos em geral e o próprio gel de carboidratos. Beba muita água de preferência captada por você mesmo nas fontes correntes, sem dispensar o uso de Clorin ou similar para purifica-la antes do consumo.  Lembre-se! Nenhum atleta, por mais forte e experiente que seja , consegue render bem se no dia da prova estiver debilitado e "vazando pelo fiofó". 

DIA 24/10/2017

Dia 24/10/17. A partir do Acampamento Tek, se alguém estiver se sentindo indisposto, pode solicitar um serviço de mototáxi até Paraitepuy de Roraima. Uma de nossas amigas que não estava bem dos joelhos, utilizou este serviço e adicionou mais uma experiência a sua aventura. Depois do café, caminhamos sem pressa por cerca de 4 horas até Paraitepuy, cumprindo o mesmo percurso que fizemos no primeiro dia de trekking. Pela nossa programação, alí a retaguarda estaria nos esperando com os carros 4x4, frutas e bebidas geladas onde seria comemorado o "Grand Finale" da expedição. Depois , seguiríamos para um almoço em San Francisco de Yuruani, com tempo para visitar a comunidade indígena e comprar artesanato. Só que não! Naquele dia, eu e Carmen, estávamos entre os primeiros a chegar no acampamento. Passamos pela vistoria de controle do parque e é bom lembrar que de lá você não pode levar nada. Os fiscais vasculham os seus pertences e se for encontrado algum cristal na sua bagagem, além da multa de setecentos dolares, você tambem pode ser preso por contrabando. Olhamos em volta e não vimos nenhuma movimentação dos carros e do pessoal  da nossa equipe de apoio e achamos estranho. Aos poucos o restante do pessoal foi chegando e através do telefone satelital, o Máximo ficou sabendo que a nossa equipe, inclusive carros e suprimentos, estavam retidos em um bloqueio rodoviário levantado pelos índios próximo de San Francisco. Nesta manifestação, os índios reivindicavam para si, a custódia de um motorista brasileiro que havia atropelado e morto uma criança indígena e havia sido preso pela polícia. O impasse estava gerado! Enquanto o pessoal de apoio tentava negociar a passagem dos carros que fariam o nosso transporte, nós de alguma forma, tentávamos driblar o tempo no acampamento Paraitepuy. A Karina foi ao posto médico e vendo a precariedade de atendimento, intercedeu junto a familiares de uma criança para convencê-los a aceitar um procedimento médico cuja família, baseada em suas crenças insistia em recusar. Todos se mobilizaram no recolhimento de alguns medicamentos que não foram utilizados durante o trekking e foram doados ao posto médico para serem usados sob a supervisão dos médicos que lá atendiam. Outro grupo se organizou e foi até a escola da comunidade participar de atividades recreativas com as crianças. Os que ficaram no acampamento, se cotizaram para remunerar em dinheiro os porteadores da nossa equipe. Nós e a maioria do grupo, além da colaboração financeira, também doamos calçados, meias, roupas, isolantes térmicos, capas de chuva e alguns alimentos que não foram consumidos. O comércio local também foi aquecido e todo estoque de Cerveja Polar foi consumido. 

DIA 24/10/2017

No front, as negociações para liberar os carros que viriam nos buscar continuavam sem sucesso. No final da tarde, chegou no acampamento um 4x4 que trazia parte de uma expedição e foi portador de uma certa quantidade de quentinhas que seria o nosso jantar. Uma quentinha para cada duas pessoas. Naquele momento, tivemos  a sensação que o nosso destino estava traçado! Imaginamos que todos Iríamos dormir no barracão de palha que nos servia de abrigo, para no dia seguinte buscarmos uma solução se a manifestação ainda continuasse. O nosso Líder Máximo Kausch, mantinha a calma e ao mesmo tempo que tranquilizava todos, continuava tentando encontrar o melhor meio de nos levar com segurança até Santa Elena. Ele negociou com o pessoal que trouxe as "quentinhas" e conseguiu quatro vagas no 4x4, junto com o pessoal de outra expedição até San Francisco sendo, uma para o nosso guia Ricardo, que ia viajar para a Guiana no dia seguinte, para visitar a sua mãe que estava doente e três para trekkers. Nesse momento foi oferecido para mim e para a Carmen, a condição de prioridade por sermos os mais velhos do grupo. Abdicamos desse direito e preferimos permanecer junto com o restante do pessoal, pois havia a confirmação de que outro 4x4 estava a caminho e seria ocupado exclusivamente pelo nosso grupo. Já era noite quando o 4x4 chegou trazendo outra expedição mas, devido a um defeito mecânico, teve que ficar parado para reparo por quase uma hora. Começou a chover fino e embarcamos apertados,  ao todo sete trekkers, mais o motorista e o "navegador" que orientava o motorista a desviar das "vossorocas" que ficavam quase invisíveis por conta da chuva e da falta do limpador de pára-brisas no nosso jipe. Para compensar essa deficiência o "navegador" projetava a cabeça para fora e indicava o melhor caminho para o motorista. Vale ressaltar que esse carro foi uma solução emergencial pois os carros que foram contratados pela nossa operadora,  eram confortáveis e possuíam todas as condições de segurança mas, infelizmente estavam todos retidos no bloqueio. Seguimos numa viagem inicialmente tensa que aos poucos foi se transformando num passeio descontraído. Fomos contando piadas o tempo todo e rindo do nosso perrengue. Em certo momento um carro que vinha em sentido contrário piscou os faróis e parou junto ao nosso. Pela conversa dos dois motoristas, ficamos sabendo que ele estava indo para Paraitepuy, buscar outra parte do nosso grupo mais estava com receio de seguir sozinho. O nosso "navegador"  foi cedido para acompanhar o motorista solitário que estava inseguro e continuamos no nosso rally noturno na direção de San Francisco. Só conseguimos chegar  no restaurante onde estava programado o nosso almoço por volta de 20 horas e lá encontramos além do Sérgio, responsável pela logística da expedição, a colega que havia embarcado no helicóptero e ficou aguardando o nosso retorno em Santa Elena. Todos dispersaram o jantar e seguimos andando pela pista, acompanhando o sergio até o outro lado do bloqueio onde estavam os carros que nos levariam até o Hotel Anaconda. A quantidade de carros, ônibus, caminhões e pessoas paradas nos dois sentidos da pista, separados por uma corda estendida pelos índios era impressionante. As pessoas reclamavam impacientes pois muitos já estavam ali por quase dois dias enfrentando sol, frio e chuva. A impressão que tive foi de  que aquele "barril de pólvora" poderia explodir a qualquer instante. O momento era tenso e Seguimos  em silêncio carregando nossas mochilas pela estrada escura, debaixo de uma chuva fina, driblando carros e a multidão que ocupava a pista. Quando nos aproximamos do posto de controle onde estavam alguns índios, um deles chegou a indagar do Sérgio porque estávamos passando. Ele respondeu rapidamente que éramos turistas, continuou andando e todos lhe acompanharam. Eu que seguia logo atrás dele, escutei o diálogo e confesso que fiquei bastante tenso, pois o pivô daquele protesto tinha sido um motorista brasileiro. Embarcamos rapidamente em dois 4x4 que estavam nos esperando e chegamos no hotel por volta de 22:00 horas. Demos notícias aos  familiares que acompanhavam a nossa movimentação pelo rastreador pessoal SPOT e fomos dormir.

25/10/2017 - CAMINHO DE VOLTA

Dia 25/10/17. Acordamos cedo e  ficamos sabendo pelo Grupo de WatsApp Rumo ao Monte Roraima que existe até hoje, que o terceiro grupo, por conta da chuva, enfrentou bastante dificuldade na estrada e o 4x4 em que estavam, quase tombou em um atoleiro. Devido ao adiantado da hora que chegaram em San Francisco, o grupo preferiu pernoitar lá mesmo. Ficamos também sabendo que, por conta das condições desfavoráveis do tempo e da estrada, que impediram a mobilização do quarto carro, o grupo formado pelo Máximo Causch, Karina Oliani, Marcelo e Andrei Polesi, pernoitou no acampamento de Paraitepuy. Na madrugada o bloqueio foi desmobilizado e por volta de 11:00 horas, todos já estavam no hotel se preparando para o almoço. Por volta de 15:30, saímos de Santa Elena de Uairén, deixando para trás o Monte Roraima que nos proporcionou uma das experiências mais enriquecedoras da nossa vida. Chegamos em Boa Vista e nos reunimos para confraternizar em uma pizzaria na Praça das Águas, onde fizemos oficialmente a nossa despedida. Dia 26/10/17. Naquela manhã o salão do hotel que no dia 16/10/17 fervilhava de pessoas ansiosas para conhecer os segredos e mistérios do Monte Roraima, encontrava-se praticamente vazio. Conversamos um pouco com o nosso Líder Máximo Kausch, pessoa que passamos a admirar mais ainda depois que o conhecemos pessoalmente. Essa mesma impressão tivemos da Karina Oliani, do Marcelo, do Andrei Polesi e de todos do grupo que fizeram parte do Trekking Monte Roraima Solidário 2017. Por volta de 10:00 deixamos Boa Vista com destino a Manaus.

GRANDE ABRAÇO!
Mario & Carmen

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CONCLUÍDO Enviando...

Mario & Carmen | Responder 06.04.2018 14.19

Brigado Luiz. Dedicamos esta conquista a vocês!
Grande Abraço!

Luiz Bruno | Responder 06.04.2018 11.20

Olá, pai e mãe. Muito orgulhoso pela aventura de vocês! Um grande abraço! Parabéns!

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Comentários recentes

06.04 | 14:19

Brigado Luiz. Dedicamos esta conquista a vocês!
Grande Abraço!

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06.04 | 11:20

Olá, pai e mãe. Muito orgulhoso pela aventura de vocês! Um grande abraço! Parabéns!

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24.02 | 14:51

Brigado ao grande amigo e Monteverdeano Alvaro pelos seus comentários!
Mario & Carmen.

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19.02 | 17:32

É contagiante mergulhar na narrativa e sentir a emoção de fazer parte dela... Parabéns amigos pelo desafio vencido... Desafio possível somente aos cortes...

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